As variadas expressões do feminino no filme Mulher-Maravilha: uma análise mitológico-astrológica II

Parte 2 – A Deusa Lunar

Em dos primeiros diálogos com sua mãe Hipólita, rainha das Amazonas, Diana questiona por que não lhe era permitido participar dos treinamentos para a luta, atividade realizada por todas as outras mulheres daquela raça guerreira. A resposta de sua mãe, ao proibir sua tia Antíope de treiná-la, apresenta um argumento interessante para o filme – bem de acordo com a imagem do arquétipo lunar da mãe, aliás: “lutar não te faz uma heroína”.

tia diana mãe
Antíope, Diana e Hipólita em cartaz de divulgação do filme

Parece contraditório, porque lutar seria o propósito original de todas as Amazonas, conforme a mitologia. Como resumem Silva e Arnt, em uma matéria da Revista Superinteressante, a lenda é anterior a Heródoto, que escreveu em 450 a.C, e também a Homero, cuja obra Ilíada data do século VIII a.C. Durante a Guerra de Tróia, Aquiles teria vencido da rainha das Amazonas Pentessiléia e, ao matá-la, teria se apaixonado por ela. Segundo a mitologia greco-romana, as Amazonas seriam fruto de um caso de amor entre Ares (Marte), o deus da guerra, e a ninfa Harmonia.  Em outra passagem mitológica, Hércules teria se apoderado do cinturão de Hipólita, outra rainha das Amazonas, ao cumprir o seu nono trabalho.

No filme a história é contada de outro modo. Diana é filha de Zeus e Hipólita, mas não sabe disso. Acredita ter sido modelada a partir do barro pela mãe e recebido a vida de Zeus, mito de criação que lhe é contado pela própria mãe. Segundo a narrativa materna, Zeus criou os homens e posteriormente as Amazonas, para lhes trazer amor e felicidade. Ares teria ficado com ciúme dos homens e os colocou uns contra os outros, soprando em seus ouvidos intrigas que lhes causavam raiva e desentendimentos.

Quando a guerra se instalou, Ares matou todos os outros deuses. Zeus conseguiu derrotá-lo e feri-lo, mas não lhe matar. Com a batalha, Zeus ficou bastante enfraquecido e, em seu último suspiro criou a ilha Temiscira, onde as amazonas se esconderam da fúria de Ares. Lá elas também esconderam o presente recebido de Zeus: “God Killer”, a “Matadora de Deuses”, que serviria para enfrentarem da ira de Ares quando fosse necessário.

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Diana roubando a espada “God Killer”

Se você não viu o filme, pare de ler aqui, pois lá vem spoiler! Diana passa sua vida pensando que a espada guardada na ilha é a Matadora de Deuses. A crença termina somente quando, ao enfrentar Ares, a espada se quebra. Somente aí ela percebe que ela própria é o presente divino de Zeus para as Amazonas, uma vez que também é uma deusa, a própria “God Killer”. Interessante perceber que a espada – talvez o símbolo mais fálico que a humanidade já conseguiu criar – precise ser quebrada para liberar a força do feminino. Ou para que ela passe a ter consciência dessa força interna, que ela própria não sabia que tinha. Voltarei a esse ponto em uma postagem próxima.

Também por esse motivo é que Hipólita reluta em deixar Diana ser treinada. Em um diálogo com Antíope, ela diz temer que a filha apresse seu encontro com Ares caso se torne uma guerreira. Antíope argumenta que isso vai acontecer de qualquer modo, e que nesse caso seria melhor que Diana estivesse bem treinada para lutar contra ele. A rainha cede, mas recomenda à irmã que torne o treinamento de Diana ainda mais difícil do que o das demais amazonas.

Lua X Sol

Diana não sabe que é filha de Zeus, e foi uma criança que cresceu sem o pai, em uma ilha onde não há homens. Poderíamos considerar o ambiente de sua vida, até o início do filme, como bastante lunar e feminino, remetendo aos cuidados que as mulheres têm com as crianças e jovens. Entretanto, ela cresce no Reino das Amazonas, figuras míticas que desafiam as concepções lunares e venusianas atribuídas pela tradição greco-romana às mulheres. Obviamente, cabe ressaltar que as narrativas míticas foram escritas originalmente por homens gregos, isto é, seres humanos que traziam um enquadramento patriarcal da realidade psíquica.

Outro ponto interessante a ser lembrado é que nem sempre os arquétipos lunar e solar foram associados com o feminino e o masculino, como fazemos desde os gregos. Anteriormente, e em várias outras culturas, a Lua tinha um papel mais ativo e central nas mitologias, conectado com a iniciativa e a assertividade, por vezes até mesmo agressivo (Guttman & Johnson, 2005, p.86), o que nos faz lembrar de religiões arcaicas que centravam suas devoções em deusas lunares. Ainda hoje, na Astrologia Védica, por exemplo, a Lua tem uma preponderância sobre o Sol.

Como ressaltam Martínez e Souza,

(…) ao negar um estatuto de feminino para as Amazonas – conforme o mundo civilizado e associado exclusivamente ao casamento e à maternidade –, estaria se combatendo a ameaça extrema que essa outra feminilidade, ou algo que não é totalmente feminino, representa. Talvez seja por isso que os heróis combatem as Amazonas, mas não sem antes tê-las amado, como Héracles, Teseu…, vimos, que lutaram contra elas como parte de uma temida provação, como uma difícil tarefa a ser cumprida para a sua consagração e a sua paradoxal missão civilizatória (Martínez e Souza, 2014, p.189).

O próprio significado da palavra “amazona” como “sem seio” – mázos (seio) antecedida pelo prefixo alpha (a, em grego), que indica ausência – está de acordo com algumas versões do mito em que as mulheres mutilavam um dos seios para melhor manejar o arco e flecha. Como não há representação artística na época, ou mesmo posterior, que mostre as mulheres sem um dos seios, alguns estudiosos consideram que uma tradução para o termo poderia ser: “que não foi amamentado”. O que faria sentido em se tratando de meninas criadas por mulheres guerreiras, ou seja, que não teriam tempo nem interesse para as tarefas da maternidade.

Inversão de papéis

Mas, esse feminino indomável contra o qual lutam os heróis não poderia, de alguma forma, ser relacionado ao inconsciente humano? Não se trata de uma metáfora para as tentativas de controle do Ego sobre as profundezas da Alma, ou do Self, conforme a nomenclatura de Jung? Nesse sentido, acho interessante pensar sobre as diferentes representações do feminino que são expressas na narrativa de Mulher-Maravilha, derivadas do próprio mito das Amazonas e da história em quadrinhos que deu origem à personagem. O que significa ser mulher? Quais são as características que uma mulher deve ter em determinado momento social e histórico?

Em relação às Amazonas, como destacam Martínez e Souza, “a tradução que o mito oferece conserva uma assimetria entre os gêneros, uma vez que mantém uma relação de dominação, embora nesse momento invertida: o feminino é valorizado e o masculino tomado como gênero depreciado”. As autoras explicam que a inversão feita no mito faz com que as mulheres tomem todas as prerrogativas que na cultura patriarcal pertenceriam apenas aos homens, que formam o universo “civilizado”. Desse modo, a inversão não modifica uma situação fundamental na relação entre homens e mulheres: o desequilíbrio de forças.

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Diana com as Amazonas, entre elas sua mãe e sua tia.

Ora, isso é bastante problemático, pois se trata de uma relação opressora da mesma forma, tendo apenas a mulher, e não mais o homem, como o sexo dominante. Contudo, não podemos esquecer que o mito das Amazonas é uma criação masculina, narrado predominantemente por homens e numa sociedade androcêntrica – os poetas se referem ao mito das Amazonas apenas dentro das Tragédias dedicadas aos heróis. Isso quer dizer que os autores fundam o mito censor sob uma lógica masculina, avessa a associar feminilidade com agressividade, força, autonomia. Por isso, representam as guerreiras como mulheres antinaturais numa tentativa de deformá-las, confirmando a ideologia cultural que põe mulheres no lugar da submissão (Martínez e Souza, 2014, p.188).

Profundezas lunares?

No filme, contudo, apesar de serem guerreiras, às Amazonas é permitido sofrer, demonstrar compaixão, cuidado com os outros e, sobretudo, amar. Como na cena em que Diana se despede de sua mãe e ouve dela as palavras: “Você foi o meu maior amor. Hoje você é a minha maior tristeza.” Ou quando todas lamentam a morte de Antíope, tia de Diana e general das Amazonas que contraria as ordens da rainha e treina a garota para a luta. Ou ainda, quando Diana vê um bebê nas ruas de Londres e se enternece, tentando abraçá-lo. O filme deixa claro, portanto, que os comportamentos delas e da própria heroína são multifacetados, de forma muito mais adequada às sociedades contemporâneas que, apesar de serem herdeiras das comunidades patriarcais, conseguem questionar alguns dos parâmetros sociais estabelecidos desde a Antiguidade.

Várias mitologias enaltecem e destacam as mudanças pelas quais a Lua durante suas fases, algo que é conectado com as marés e também às mudanças hormonais pelas quais as mulheres passam durante o ciclo menstrual. As diferentes manifestações da Deusa Lua, correspondentes às diferentes etapas do ciclo são associadas aos comportamentos que as mulheres podem assumir ao longo da própria vida. Assim, estamos acostumados a relacionar a Lua à água, aos sentimentos e às variações de humor decorrentes das suas mudanças de fases.

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Fases da Lua. Photo by Jordan on Unsplash

 

Assim, nos tempos antigos, a própria Grande Deusa era percebida em fases; apesar de seus muitos nomes, tinha três aspectos principais. No início, era a ninfa ou donzela, correspondente à Lua crescente. Como Lua cheia, a deusa se manifestava como a mãe, com a barriga redonda como a Lua cheia. As chamadas “deusas gordas” do neolítico ilustram esse aspecto fértil e fecundo da Lua. Como a Lua minguante, a deusa se manifestava como a anciã sábia (Guttman & Johnson, 2005, p.87).

Acredito, por isso, que o filme traz um aspecto lunar destacado, porque conectado a diversas perspectivas do feminino e em profunda conexão com as deusas arcaicas. No mapa de lançamento dele, a Lua estava em Capricórnio, o que significa que a obra pode ter ajudado a materializar boa parte dessas representações míticas em torno do arquétipo lunar. Além disso, o trígono com a Lua virginiana de Gal Gadot pode demonstrar o retorno a uma perspectiva mais conectada com a natureza, mais flexível para o feminino, mais saudável, uma vez que não está restrito a um papel passivo supostamente eleito como o principal para as mulheres, em uma sociedade patriarcal concebida por homens.

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A Deusa Ártemis

Destaco ainda que o nome romano Diana é o correspondente à deusa grega Ártemis, deusa da Caça, protetora do parto, da natureza e dos pequenos animais. Que também é associada ao signo de Virgem por alguns autores. Além disso, é a deusa clássica mais frequentemente associada à Lua, algo que os romanos fizeram ao nomeá-la Diana. Segundo Guttman e Johnson, Diana é uma deusa jovem, representa a fase ninfa ou donzela da Lua, a fase crescente. E a Lua, como sabemos, é associada à memória, às coisas que recebemos do mundo, funciona como um receptáculo – o Santo Graal? – para os nossos sentimentos e hábitos. Em outras palavras, o inconsciente pessoal (2005, p.88).

Como destaca Miguel Pontares em sua crítica do filme,

 “Mulher-Maravilha transmite uma mensagem positiva e é sinônimo de esperança. Diana Prince luta lado a lado com soldados, incluindo algumas sequências de combate a roçar o épico, e é ela quem dá o primeiro passo nas trincheiras. Fá-lo por saber o caminho certo, e porque todo o filme é o abraçar da sua natureza. Um processo de autodescoberta. Não escolhe um lado, porque o objetivo não é ganhar a guerra. É pará-la, para que não se percam mais vidas.”

Talvez seja exatamente isso o que Hipólita diz para Diana: lutar não te faz heroína, parar a guerra, sim.

Há algo mais lunar do que isso?

Referências

GUTTMAN, A.; JOHNSON, K. Astrologia e Mitologia. Seus arquétipos e a linguagem dos símbolos. São Paulo: Madras, 2005.

MARTÍNEZ, V. C. V.; SOUZA, I. S. F. O mito das Amazonas em cena: uma discussão psicanalítica sobre a feminilidade e o gênero. Cadernos de Psicanálise-CPRJ, Rio de Janeiro, v. 36, n. 30, p. 171-197, jan./jun. 2014.

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P.S. Ainda farei outros três posts de análise dos aspectos astrológicos do filme Mulher-Maravilha. Eles serão publicados semanalmente.

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