As variadas expressões do feminino no filme Mulher-Maravilha: uma análise mitológico-astrológica III

Parte 3: Os deuses dos mundos escondidos – NETUNO

Não é mera coincidência que, em vários idiomas, o sentido do verbo “apaixonar-se” seja, literalmente, descrito como “cair de amor”. Em inglês: “to fall in love”; em espanhol: “enamorar-se” ou “caer” por alguém; em francês: “tomber” por alguém. Em português, também temos “uma queda” por alguém, fenômeno que pode ser mais leve que uma paixão ou tão intenso quanto – e nesse caso, “ficamos de quatro” pela pessoa. O que as línguas tentam descrever, provavelmente, é o movimento de entrada nas nossas projeções internas para as quais o outro serve de gancho e a fascinação decorrente desse processo, psicologicamente falando.

Mas o que significa essa queda? Onde, exatamente, estamos caindo? E para quê?

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Photo by Bruce Christianson on Unsplash

No filme Mulher-Maravilha, o primeiro encontro entre Diana Prince e Steve Trevor é, literalmente, um mergulho para ambos. O piloto que trabalhava como espião para o Reino Unido durante a Primeira Guerra Mundial despenca com seu avião do céu após perfurar o escudo protetor de Temiscira, a ilha das Amazonas escondida dos humanos por Zeus. Interessante lembrar que o escudo é impactado e quase destruído pela força de Diana, liberada inconscientemente durante um treinamento com sua tia Antíope, comandante das Amazonas. Paralelo interessante é o que ocorre com o Ego, nos termos junguianos, quando nos apaixonamos e nos sentimos “invadidos” e ao mesmo tempo “completos” pelo outro.

Steve cai no mar e fica preso no avião. Ao vê-lo despencando, Diana mergulha e nada para salvá-lo (veja a cena). Uma bela metáfora para as energias despertadas por Netuno no processo amoroso, de um ponto de vista astrológico. Regente moderno do signo de Peixes, Netuno – ou Poseidon, para os gregos – é o Deus dos Mares na mitologia, irmão de Júpiter (Zeus), deus da Terra e do Céu, e Plutão (Hades), deus do Mundo Subterrâneo dos Mortos. Mas além do “tempestuoso e irado deus do mar Poseidon” (Guttman & Johnson, 2005, p.204), que agita as águas do inconsciente coletivo, Netuno também mobiliza o arquétipo de Dionísio (Baco), o principal deus do êxtase religioso, relacionado à dança e ao vinho.

Transcendência, espiritualidade, empatia, sensibilidade, compaixão são alguns termos associados ao arquétipo na astrologia psicológica contemporânea. Netuno é conhecido como a oitava maior de Vênus, o que significa que desperta em nós um sentido de comunhão com os valores cósmicos e universais, a necessidade interna de integração ao universo, por meio do amor incondicional por tudo aquilo que faz parte de nós mesmos.

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Netuno (Poseidon), o Deus dos Mares

Netuno e as forças inconscientes

Invisível e imprevisível, como os demais planetas transpessoais – Urano e Plutão –, Netuno traz o poder da imaginação que vem do inconsciente coletivo e representa a nossa influência sobre o outro como uma forma de identificarmos a nós mesmos. Para alguns autores, Netuno aproxima e conecta os seres humanos, porque nos possibilita enxergar ao outro quando enxergamos a nós mesmos.

Na alquimia, o planeta é associado ao estágio da solutio (Greene & Sasportas, 1995), ou seja, ao processo de dissolução, morte e transformação por meio do elemento água. Nesse processo, há a experiência de rompimento dos limites do ego, uma experiência de rendição, quando ficamos vulneráveis e permeáveis aos sentimentos e corremos o risco de sermos invadidos pelo outro (Greene & Sasportas, 1995, p.214). De certa forma, corresponderia ao desejo de fazer parte de algo divino, maior do que nós próprios, de se reintegrar ao todo – ou, mais especificamente, de retornar às águas uterinas, ao estado de fluidez total. As imagens de afogamento, batismo e ressurreição estão relacionadas a esse arquétipo.

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Photo by Lieselot. Dalle on Unsplash

Ainda que não trate especificamente do amor em sentido sexual, Netuno traz com ele descrições de sentimentos que são mobilizados em vários tipos de relacionamentos amorosos. A doação, a entrega, o sacrifício, a intimidade, o êxtase, a sensação de fusão com o outro são tipos de experiências netunianas que ultrapassam o nível de busca de afeto e prazer gerado por Vênus, ou a simples iniciativa e desejos sexuais despertados por Marte.

O penúltimo planeta do sistema solar Netuno é um gigante de gás descoberto em 23 de setembro de 1846 por Johann Gottfried Galle, do Observatório de Berlim, e Louis d’Arrest, um estudante de astronomia, através de predições matemáticas feitas por Urbain Jean Joseph Le Verrier. De fato, o planeta estava sendo procurado pelos astrólogos desde a descoberta de Urano, em 1781. Dois terços dele são compostos de uma mistura de pedra fundida, água, amônia líquida e metano. O terço externo é uma mistura de gases aquecidos incluindo hidrogênio, hélio, água e metano. É o metano que dá a Netuno sua cor de nuvem azul.

A aparência azul do planeta remete ao oceano e sua consistência gasosa ajuda a conectá-lo às questões do inconsciente coletivo, à fantasia e às ilusões, termos também associados a ele. No caso da cena do encontro entre Diana e Steve, à heroína amazona cabe o resgate do masculino que se afoga no mar – de suas próprias ilusões humanas e marcianas, talvez? O fato de que o primeiro lugar onde eles se encontram é na água, no oceano, dá o tom quase místico do relacionamento que vemos se desenrolar na tela: um amor romântico que traz o sacrifício dos desejos pessoais no mundo concreto, e que aponta para as conexões sublimes das almas.

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O gigante de gás Netuno

Não por acaso, o final da trama cinematográfica mostra o tipo de sacrifício que ambos estão dispostos a realizar em nome de um amor universal, de um sentimento que os conecta ao todo, muito mais amplo, portanto, do que apenas um relacionamento sexual ou afetivo entre ambos.

(Comentário autocrítico que contém spoiler: talvez toda essa interpretação seja apenas o reflexo do poder netuniano sobre a minha própria Carta Natal, afinal ele está em Sagitário na minha Casa VII e, atualmente, o Netuno no céu, em Peixes, está em quadratura com o meu Netuno natal. Idealismo excessivo sobre o amor romântico? Muito provavelmente. Depois de ler a crítica de dois escritores norte-americanos sobre o filme isso ficou mais claro. Lembro que quando assisti ao filme com uma amiga – Libriana com Saturno na Casa VII – ela reclamou do mesmo incômodo expresso por eles: de que não parecia verossímil que a influência de Steve sobre Diana fosse tão forte a ponto de fazê-la descobrir o seu verdadeiro poder apenas na hora da morte dele. Ponto aberto para os comentários!)

Lado feminino de Netuno: o arquétipo de Dionísio

É interessante que a narrativa de Mulher-Maravilha subverta o argumento convencional dos filmes de super-heróis e escolha mostrar como o ingrediente ativo da relação a personagem feminina. Cabe à “mocinha” salvar o “mocinho” com sua força e coragens descomunais, e não o contrário, como estamos acostumados a ver nos produtos audiovisuais. O crítico Pablo Villaça, sensível a esta questão, comenta com propriedade:

Assim, não vou fingir ser capaz de perceber todas as maneiras como Mulher-Maravilha reflete e repercute a percepção do papel da mulher na sociedade, no Cinema ou no próprio gênero “ação”, embora seja impossível não abordar o empoderamento feminino (esta expressão tão temida por alguns) quando constatamos como foram necessárias mais de seis décadas desde sua criação para que a super-heroína finalmente ganhasse seu próprio veículo nas telas grandes – e, portanto, quando logo no início da projeção vemos a pequena Diana (Aspell) observando o treinamento das amazonas e imitando seus gestos, o que o filme está comentando é seu próprio papel como um espelho no qual as jovens espectadoras podem finalmente encontrar um reflexo de sua força.

Aliás, esta postura de Diana é algo que reflete bem a forma com que Hollywood tem sido obrigada a reconhecer a disparidade entre o protagonismo de homens e mulheres em superproduções, o que me obriga a repetir pela enésima vez a excelente frase de Éric Rohmer sobre como “todo bom filme é também um documento de sua época” – e, portanto, quando Steve apresenta a parceira como sendo sua secretária ao perceber que só assim seus superiores considerariam plausível sua presença em um ambiente de poder, é óbvio que a obra está fazendo uma crítica a um histórico machismo institucional. (…)

Sobre esse ponto, vale a pena comentar que os astrólogos percebem Netuno como um planeta “suave”, delicado, sensível, de tom feminino, ainda que relacionado mitologicamente a dois deuses. Guttman & Johnson (2005) relembram um dos mitos mais comuns sobre o nascimento de Dionísio para explicar essa delicadeza atribuída a Netuno e destacam que homens “netunianos” amam as mulheres e chegam mesmo a “compreendê-las”. Segundo os autores,

A história mais comum de seu nascimento, porém, faz dele um filho de Sêmele, princesa de Tebas. Seu pai era Zeus. Hera, com ciúmes, enganou Sêmele, fazendo com que fizesse um pedido fatal para seu amante: ela pediu para que Zeus se mostrasse a ela em toda a sua glória. Zeus atendeu ao infeliz pedido e Sêmele foi consumida em fogo imediatamente. Mas, seu filho de seis meses, Dioniso, foi costurado na coxa de Zeus, para que pudesse nascer no tempo devido. Escondido de Hera, foi criado por um grupo de ninfas chamadas Híades; elas o disfarçaram de menina. Não devemos nos espantar, portanto, com o fato de netunianos terem uma suavidade feminina ou pelos netunianos serem muito delicados: Dionísio é filho da Grande Mãe e foi criado como andrógino.

Depois de crescido, Dionísio – ou Baco, na nomenclatura romana – ensina o cultivo da uva à humanidade, espalhando o êxtase alcoólico por onde passava, em rituais – os bacanais – nos quais suas seguidoras eram mulheres embriagadas que “dançavam com selvagem abandono e que, em sua loucura, cortavam homens em pedaços” (Guttman & Johnson, 2005, p.205). Não espanta, portanto, que na astrologia psicológica Netuno esteja associado também ao escapismo, à loucura e aos vícios, além da expressão e da sensibilidade artísticas.

Amor incondicional

Guttman & Johnson alertam para a força do êxtase – seja religioso ou narcótico – que se expressa quando incorporamos o arquétipo netuniano. Apesar das possibilidades divinas abertas com essa experiência, mergulhar no inconsciente coletivo pode ser grandioso demais para simples mortais como nós. Podemos virar os “bodes-expiatórios” coletivos, instrumentos para catarse das dores e pulsões da multidão, sendo por ela despedaçados – algo que está presente também na história de Jesus Cristo, que coincide, segundo os astrólogos, com o início da Era de Peixes.

Para administrar essa força interna incontrolável da pulsão, expressa pelo descontrole das multidões, os autores usam novamente o exemplo de Dionísio que, ao se casar com Ariadne, “adquiriu maturidade e equilíbrio”, deixando de lado o estilo de vida “vagabundo”. Eles alertam, contudo, que a dinâmica salvador-vítima é a constante em relacionamentos netunianos, o que pode não ser muito saudável para ambos os envolvidos.

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Dionísio, Deus do vinho e da dança

No caso de Diana e Steve – atenção para o spoiler! –, apesar da dor da separação ao final, não há amargura ou rancor. Ambos fazem suas escolhas em nome de algo maior, transcendente, em outros termos. Steve se sacrifica pela humanidade ao levar um avião carregado com bombas para fora da atmosfera. Antes de, conscientemente, escolher a própria morte para poupar os demais de uma destruição ainda maior, diz a Diana que ele pode apenas salvar o dia com suas ações, enquanto ela salvará o mundo. Um dos aspectos mais relevantes de Netuno, portanto, é a idealização do outro enquanto salvador. Obviamente, no caso de Steve, é apenas o reconhecimento do poder de Diana.

Em outra passagem do filme, quando Diana está desiludida com a maldade humana, Steve a encoraja a seguir na defesa da humanidade com palavras reveladoras da dinâmica netuniana que perpassa o personagem: “Talvez as pessoas não sejam boas, com ou sem Ares. Somos todos culpados por esta guerra. Eu também sou culpado. E talvez não mereçamos sua ajuda, mas não se trata de merecer.” Afinal, Vênus encontra sua exaltação em Peixes, o que sugere que “a manifestação mais elevada de Netuno é o amor e a compaixão universal, que abrange tudo” (Guttman & Johnson, 2005, p.207).

Provavelmente, ao acionar o arquétipo netuniano – que nos remete também, em boa medida, ao feminino selvagem que encontramos em Lilith –, Diana encontra a sua “salvação”. Na cena final da batalha entre ela e Marte (Ares), quando está prestes a ser vencida e vê o avião de Steve explodir, sua dor a conecta com sua força, até então desconhecida para ela própria (veja a cena). É somente neste momento que ela consegue destruir o Deus da Guerra. O feminino explode, deixando sair raiva, frustração e a dor do amor impossível, e acaba aniquilando uma expressão de masculino violento e descontrolado.

Paradoxal, não? Como Netuno. E como a vida.

Referências

GREENE, L.; SASPORTAS, H. A Dinâmica do Inconsciente. Seminários sobre Astrologia Psicológica. São Paulo: Pensamento, 1995. 10ª edição.

GUTTMAN, A.; JOHNSON, K. Astrologia e Mitologia. Seus arquétipos e a linguagem dos símbolos. São Paulo: Madras, 2005.

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