Saturno & Lilith: Paradoxo essencial a serviço do desenvolvimento psíquico

Uma pergunta que ouço bastante desde que comecei a estudar sistematicamente a Astrologia, há quatro anos, traduz a inquietação de muitos em relação ao estudo dos astros e suas influências sobre nós, seres sublunares humanos. “Por que você resolveu estudar Astrologia?”.

Consigo perceber nessa questão pré-conceitos em relação à prática astrológica, em grande parte estimulados pelos estereótipos difundidos pela mídia sobre os caminhos mais adequados para o autoconhecimento. As décadas de 60 e 70 do século XX trouxeram a divulgação no Ocidente de práticas espirituais e curativas milenares com origens nas culturas orientais – yoga, meditação, runas, acupuntura, etc. Nesse pacote, a Astrologia também passou a ser vista com maior curiosidade, ainda que sempre tenha estado presente na história da Humanidade, inclusive durante os períodos considerados hoje pouco propícios ao questionamento pessoal – como a Idade Medieval, por exemplo.

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Para que estudar as estrelas? Photo by Anastasia Dulgier on Unsplash

De qualquer modo, a curiosidade comum a muitos é justificável sob um ponto de vista reflexivo. E merece uma resposta adequada, por dois motivos. Primeiro, porque cabe ao profissional responsável explicar à comunidade os objetivos de sua prática, especialmente quando estes vão para além da simples especulação ou entretenimento. Em segundo lugar, parece lógico que a resposta a esta pergunta pode ser de extrema utilidade para a própria astróloga, uma vez que indica um caminho profícuo de análise e pesquisa sobre suas próprias intenções e motivações internas.

Então, explico. Se o objetivo central do estudo da Astrologia, para muitos, é obter algum conhecimento sobre o futuro, para mim, enquanto pesquisadora, não se trata exatamente de obter informações sobre possibilidades de ação abertas no presente. Trata-se, em uma medida mais psicológica, de ancorar a intuição para a ação no conhecimento ou vislumbre de situações passadas. Em grande medida, o cerne da questão é, exatamente, a compreensão das motivações internas para a ação. O que, comumente, chamamos de autoconhecimento ou percepção da lógica interna do sujeito. Ou, o que outros denominariam de “ampliação da consciência”, com a tentativa de integração de alguns conteúdos inconscientes.

Claro que esse é um processo subjetivo, interno, pessoal. Porém, quando procurada para oferecer a minha leitura da Carta Natal de outras pessoas, o exercício é muito parecido. O que significa ter o Sol neste ou naquele signo? Como essa pessoa se relaciona com essa energia interna? Como posso ajudá-la, com a minha leitura, para que ela se relacione ainda melhor com essa energia e consigo mesma? Resumidamente, são essas as intenções de qualquer interpretação astrológica.

Psicologia para auxílio na compreensão

O viés psicológico da minha abordagem é quase uma decorrência dessa intenção, portanto. E também da falta de uma perspectiva mística ou espiritual mais aprofundada para balizar a aprendizagem da mitologia astrológica. (O que não considero, sob nenhum aspecto, um entrave para a pesquisa e a prática do aconselhamento astrológico.)

Seguindo a linha de argumentação de Sicuteri, se os temas da mitologia não são simples objetos de conhecimento para a psicologia profunda, mas sim “realidades vivas do ser humano, que existem como realidade psíquica”, por que não o seriam para a Astrologia de vertente psicológica? “A psicologia profunda se volta para a mitologia não tanto para aprender sobre os outros no passado, quanto para compreender a nós mesmos no presente” (Sicuteri, 1990, p.80), resume.

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Astrologia profunda? Photo by Zoltan Tasi on Unsplash

Durante o percurso de estudos, muitas questões levantadas por colegas e professores encontraram eco na minha consciência racional. A mitologia referente aos planetas e signos, especialmente, é um tema de grande interesse e que motivou várias leituras – e inclusive, está presente na maioria das postagens desse blog. Marte e Vênus, Sol e Lua e as dualidades expressas astrologicamente atraíram minha atenção durante o curso e foram o cerne de uma reflexão pessoal sobre as dimensões Yin e Yang e as suas possibilidades de integração em meu próprio Self.

Contudo, a percepção das dimensões mais sutis presentes nessa mitologia sempre foi um desafio. A apreensão do próprio conceito de “sombra” mostrou-se complicada, em alguns momentos, extremamente desconfortável em outros. Com o passar do tempo, essa dificuldade foi tornando-se mais relevante, especialmente a partir do momento em que compreendi que esta questão encontrava uma fundamental ressonância interna. O exercício de aprofundamento tentado a partir daí indicava que, para além da racionalização propiciada pela mitologia, era preciso buscar um meio de acessar as características que a minha consciência freneticamente tenta (va) esconder de mim mesma e dos outros. E me questionar: por quê?

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Sombra de fogo. Photo by Jordon Conner on Unsplash

O peso de Saturno

Nesse exercício, Saturno apareceu primeiro.

Intrigante. Questionador. Perturbador.

O próprio epíteto traduzia certo desconforto para mim: “senhor do tempo”[1]. Qual tempo? Sob o controle de quem? Processos longos sempre me trouxeram inquietação e aborrecimento. Ao me deparar com o arquétipo saturnino, finalmente pude compreender as descrições dos arianos como “velozes”, “impacientes”, “impulsivos”. Nenhuma descrição caberia melhor a mim, nascida sob Sol e Lua conjuntos em Áries. “Que raios de planeta mais esquisito é esse Saturno, afinal? E que processos tão longos e lentos, dolorosos e profundos são esses que traz? Não podemos ir mais rápido com isso?”, foram questões que surgiram naturalmente durante a descoberta desse professor invisível e implacável.

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Sombra saturnina

E a reflexão motivada por leituras, aulas, trocas com colegas e professores, me fez descobrir algo surpreendente: minha natureza exacerbadamente saturnina, que eu insistia em negar, mesmo sabendo que existia. Contraditória? Paradoxal? Confusa? Dividida entre a aceleração e o limite? Desafiadora e conservadora? Impulsiva e excessivamente prevenida? Todas as alternativas propostas. Ao mesmo tempo. Agora.

Enquanto eu me deliciava, absorta, com as descobertas deste lado escuro, sombrio, intrigante da minha personalidade, tentando entender, afinal, como ele se conjuga com o restante mais consciente, veio outra surpresa embasbacante.

E ainda mais fantástica.

A força de Lilith

Dizem que quem não deve, não teme. E por isso, ao entrar na minha constelação pessoal, ela já foi logo colocando lenha na fogueira ariana-saturnina, apresentando-se em conjunção com o Ascendente taurino. Lilith.

Quando, em uma aula, meu mestre Maurice Jacoel riu e comentou: “Lilith no ascendente nunca passa despercebida”, eu fiquei intrigada. De que se trata, afinal, essa energia do “feminino selvagem”, tão visível aos outros na minha própria energia? E, paradoxalmente, quase desconhecida de mim mesma?

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Feminino selvagem para quem? Photo by Marek Szturc on Unsplash

A partir daí, o mergulho foi imediato. Fui fisgada pelo arquétipo. Motivada pela curiosidade e aguçada pelo desafio de compreender do que, afinal, estávamos falando. Como geralmente acontece em momentos de extremo questionamento das certezas prévias, esse movimento fez muito sentido interno. De formas não muito lógicas ou puramente racionais. Inclusive, e especialmente, por trazer tanta perturbação. Como ressalta Engelhard (1997, p.31),

Podemos chamar de Lilith toda manifestação criativa que tem como objetivo pesquisar o mundo interno (o inconsciente) e que subtrai o domínio da razão pura. A psicanálise de Freud, a psicologia analítica de Jung, a filologia expansiva, a arte do surrealismo e do dadaísmo e as pesquisas astrológicas, orientadas pela sincronicidade, são expressões de Lilith.

Comecei naquele momento, portanto, minha tentativa pessoal de organizar minimamente o caos de referências e reflexões motivadas pelo encontro com esses dois “arquétipos da sombra”, nos termos junguianos: Saturno e Lilith. Esse foi o objetivo do meu trabalho final no curso de Formação em Astrologia pela Unipaz-DF. O resultado também foi apresentado em 2017 no Congresso do Sinarj.

Esclarecimentos iniciais

As partir das reflexões feitas desde então, vou compartilhar nos próximos posts algumas ideias básicas e alguns pontos interessantes de convergência e comunicação, bem como as discordâncias, entre essas duas figuras arquetípicas integrantes da estruturação psicológica humana. Não há a pretensão de um estudo científico nos termos da Psicologia Analítica Junguiana, ainda que as referências usadas tragam alguns conceitos desse autor de forma resumida e adaptada. O referencial aqui é, preferencialmente, astrológico.

Na estruturação desta reflexão, e na primeira proposta de organização do conteúdo, Lilith aparecia sempre primeiro. Não apenas por uma questão de cortesia masculina de Saturno, mas porque me parecia que sua dimensão conectada ao feminino merecia a primazia no tratamento das minhas questões internas.

Ao começar a escrever sobre o assunto, contudo, a ordem de apresentação dos fatores – que talvez não altere o resultado do produto – foi invertida. Apesar de reconhecer que há menos coisas escritas e analisadas sobre Lilith do que sobre seu parceiro masculino, algo que me levaria naturalmente a colocá-la em primeiro plano, percebi durante o trajeto que a abordagem dela exigiria de mim mais conexão com a sombra. O que não poderia ser feito sem a ajuda valorosa de Saturno como guia e parceiro de jornada.

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Saturno & Lilith: parceria para enfrentar a sombra. Photo by Wesley Balten on Unsplash

Deste modo, o próximo post tratará da dimensão de Saturno como organizador da nossa experiência concreta, ainda que interna. A discussão sobre a aprendizagem pelo sofrimento, a estruturação de uma organização interna da psique e dos nossos limites e responsabilidades por nossas próprias ações e sentimentos é feita com base nas reflexões de alguns autores essenciais, tais como Arroyo, Greene, Tilney e Stone.

Depois disso, partirei para a tentativa de apreensão do arquétipo de Lilith e da sua complexidade, especialmente em termos de integração ao restante da psique. E, num terceiro movimento, busco a síntese entre os dois.

Em alguma medida, espero que a análise de algumas representações trazidas por ambos os arquétipos possa auxiliar astrólogos, pesquisadores e indivíduos nesse processo de articulação interna das dimensões Yin e Yang, feminina e masculina. Se isso não for alcançado, que, pelo menos, seja iniciado um processo de reflexão sobre os estereótipos a que estamos, mulheres e homens, submetidos culturalmente, especialmente quando nos dispomos a tratar astrologicamente das energias que compõem a psique.

Mergulhemos juntos na sombra, então.

 

Referências

ENGELHARD, Suely. O renascer de Lilith. Junguiana. Revista Brasileira de Psicologia Analítica. Nº 15, dez. 1997, p. 28-41.

GREENE, Liz. Saturno. O Senhor do Karma. São Paulo: Pensamento, 1995. 10ª ed.

SICUTERI, Roberto. LilithA Lua Negra. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.

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[1] Para Liz Greene, Saturno é o “senhor do Karma”, subtítulo de seu livro sobre o tema, aliás.

4 respostas para “Saturno & Lilith: Paradoxo essencial a serviço do desenvolvimento psíquico”

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