Saturno & Lilith – Paradoxo essencial a serviço do desenvolvimento psíquico IV

Casamento por interesse ou por amor?

  • Rebeldia X Contenção.
  • Ruptura X Continuidade.
  • Caos X Estrutura.
  • Imediatismo X Lentidão.
  • Liberdade X Autoridade.
  • Prazer X Esforço.
  • Emoção X Razão.
  • Yin X Yang.
  • Feminino X Masculino.

A dicotomia entre os variados aspectos dos arquétipos de Lilith e Saturno demonstra, de uma forma bastante didática, a complexidade da estrutura psíquica humana. Seja de um ponto de vista espiritual ou mitológico, seja por meio da abordagem psicológica, a relação entre esses dois tipos de energias pode se aproximar do que costumamos chamar de integração consciente de aspectos duais do inconsciente.

Tom Jacobs, por exemplo, destaca que a energia feminina É, pois interessada, focada e concentrada em SER. “Traz a experiência por si mesma e conhece o mundo por si mesma”. Enquanto a energia masculina FAZ, uma vez que está interessada, focada e concentrada em CONTROLE e DIREÇÃO. Por isso, “dá forma à energia feminina” (Jacobs, 2008, p. 17). Dessa forma, o masculino observa o feminino como algo fora de controle, energia sem foco, improdutiva, e procura dar uma instrução, estrutura, disciplina e base para essa energia que simplesmente é (Jacobs, 2008, p. 18).

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O leitor atento certamente percebeu a aproximação entre os termos usados por Jacobs e a descrição de vários autores sobre os arquétipos de Lilith e de Saturno. É possível, então, que as energias saturninas tenham, entre outras funções, dar forma e canalizar de modo construtivo as energias disruptivas de Lilith? Por sua vez, caberia a Lilith quebrar as resistências e inibições de Saturno, a fim de ampliar a espontaneidade das expressões psicológicas do sujeito? Se essas hipóteses forem aceitas como lógicas, astrologicamente torna-se muito relevante investigar os aspectos entre esses dois planetas em qualquer mapa natal, assim como analisar os contatos que possam fazer nos mapas de trânsito[1].

Características compartilhadas

De qualquer modo, é importante esclarecer que, apesar dessas diferenças mais visíveis, ambos os arquétipos compartilham de algumas características importantes e constituem verdadeiros desafios ao desenvolvimento e amadurecimento da psique.

Liz Greene, por exemplo, destaca o valor educativo de Saturno, numa perspectiva bastante similar as de Hurwitz ou Kultov sobre Lilith, apresentadas no post anterior.

Na doutrina esotérica, Saturno é o planeta do discipulado, e um discípulo é simplesmente alguém que está aprendendo. Ele não é maléfico, não é uma influência negativa e só se torna um inimigo daqueles que não podem compreender o valor educativo do sofrimento. Seu caminho não é aquele do mártir ou do disciplinador, mas, em vez disso, contém as sementes da alegria. Sua linhagem é antiga e impecável e suas associações, no mundo do mito, da religião, do folclore e dos contos de fadas, são inumeráveis e variadas, porém sempre coloridas pela ideia de que, se não fugirmos do demônio, mas, ao contrário, dirigir-mo-nos até ele e beijarmos seus lábios, ele se transformará no Sol (Greene, 1995, p. 196-197).

O próprio argumento de que “beijar o demônio poderá transformá-lo no Sol” está presente nos contos de fadas e mitos, no tema dos sonhos narrados por Hurwitz, nas reflexões propostas tanto pelos autores que abordam Saturno, quanto por aqueles que se dedicam a estudar Lilith. O ponto central, aqui, parece ser a necessidade de aceitação consciente da sombra, em suas faces feminina e masculina, para que as características sejam totalmente integradas à psique e possam constituir o sujeito em sua totalidade.

Jacobs alinha-se aos demais autores citados anteriormente ao considerar que a repressão do feminino instintivo pelas culturas patriarcais, especialmente o Judaísmo e o Cristianismo, e seu princípio essencial de que o patrimônio deve ser herdado pela linhagem masculina provocou a nossa cisão interna, a difícil conciliação entre feminino e masculino dentro da psique, causando doenças e infelicidade (Jacobs, 2008, p. 20).

É a essa conciliação que me refiro quando, juntamente com Jacobs, critico o estabelecimento, pela cultura patriarcal, dos princípios de que “um homem precisa saber com certeza quem são os seus filhos; a sexualidade e o corpo feminino precisam ser controlados; e a vida sexual das mulheres precisa estar, portanto, focada na procriação” (Jacobs, 2008, p. 24). Obviamente, assim como o autor, não defendo a substituição do patriarcalismo pelo matriarcalismo, ou algo que valha, mas acho que faz sentido a proposta dele de cura por meio da nossa reconexão interna com o selvagem representado por Lilith, através do respeito aos ciclos naturais do corpo e da natureza como um todo (Jacobs, 2008, p.29).

Também Hurwitz lembra que os melancólicos geralmente são acusados de terem uma “natureza SATURNINA” e afirma que, por isso, é preciso investigar a relação de Lilith com Saturno – posto que atribui a melancolia à falta de integração das características de Lilith na psique. Nas palavras dele, Saturno é uma figura ambivalente. “É o sábio, o maduro, o constante, inteligente e criativo; mas na astrologia ocidental é o maléfico, uma estrela do azar, do crime, da morte, da solidão, melancolia e desespero” (Hurwitz, 2012, pos. 3129).

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Melancolia ou busca interna? Photo by Logan Fisher on Unsplash

Se há, como Hurwitz afirma, uma relação entre a natureza “saturnina” da criatividade e situações depressivas, seria ainda mais importante investigar a relação entre Saturno e a melancolia, ou entre Lilith e Saturno, posto que ela carrega no arquétipo as qualidades vitais da criação e autoexpressão. Além disso, Hurwitz lembra que, segundo o Zohar, Lilith estaria sob o controle de Saturno, por representar a melancolia do reino da morte, da pobreza, da sombra, choro, lamentos e fome. O autor termina de explorar essa relação questionando se Lilith seria a causa ou a consequência da melancolia (Hurwitz, 2012, pos. 3338).

Nesse ponto, é importante lembrar que os autores mencionados incluem em suas análises, em maior ou menor medida, princípios junguianos ou da psicanálise. Como ressalta Hurwitz, se a depressão é configurada por “dissociações relativas, um conflito entre o Ego e uma força conflitiva baseada em conteúdos inconscientes”, como ressalta Jung, a única forma de escapar dela é deixar o inconsciente vir à tona e se deixar guiar pelos conteúdos que provocaram a depressão (Hurwitz, 2012). Seja por meio de sonhos, fantasias, expressão artística e uma ativa imaginação, é necessário achar uma forma de expressão para esses conteúdos. Eles precisam, de alguma forma, transbordar para o mundo consciente do sujeito para que possam ser usados construtivamente por ele.

Cura para o feminino interno

O confronto com Lilith pode fazer com que ela se transforme, ensina Hurwitz. O diálogo interno começa e Lilith perde um pouco da sua escuridão, compulsão e selvageria. De qualquer forma, a experiência consciente e a aceitação desses dois aspectos opostos do inconsciente contêm a possibilidade dessa integração, o que leva ao desenvolvimento da consciência em um processo de autorrealização, nas palavras do autor (Hurwitz, 2012, pos. 4286).

Opinião similar tem Jacobs, para quem o arquétipo de Lilith tem como função primordial trabalhar conscientemente alguns temas psíquicos essenciais:

  • Aceitar o corpo como ele é e deixá-lo fazer o que ele tem que fazer;
  • Honrar e acreditar no instinto;
  • Honrar e deixar a rudeza instintual sair;
  • Cultivar autonomia;
  • Trabalhar pela igualdade entre os papeis de gênero e pelo equilíbrio entre feminino e masculino;
  • Lutar para deixar situações que não são justas a fim de manter o auto-respeito (Jacobs, 2008, p. 45).

Ao longo de sua obra, Jacobs ressalta os “Nove estágios do processo de cura com Lilith”, passos essenciais na sua busca, mas que podem ser realizados em qualquer ordem, a partir das possibilidades do sujeito. São eles:

  • Ser assertivo na igualdade;
  • Conhecer as tentativas de dominação que sofremos;
  • Voar;
  • Separar-se;
  • Sentir raiva;
  • Sentir luto e saudade;
  • Aceitar a responsabilidade;
  • Refazer o compromisso com o que é importante;
  • Reentrar no mundo, ao final do processo.

É exatamente esse processo de reconexão, tanto com o mundo interno da psique, quanto com o mundo externo, o ponto mais importante para a reflexão sobre os arquétipos de Lilith e Saturno. E, portanto, um dos propósitos deste trabalho.

Como ressalta Sicuteri, o reencontro de Lilith-Lua Negra se dá, contemporaneamente, exatamente no Zodíaco, e com extraordinários significados.

Se compreendemos a astrologia como uma especulação transcendente e, também ela, como diálogo transformativo com o próprio inconsciente, podemos então conceder valor à presença e ação, no horóscopo, do símbolo-sinal de Lilith-Lua Negra, referente à temática do “feminino” (Sicuteri, 1990, p. 87).

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Conexão com o feminino instintivo e criativo. Photo by Jeremy Bishop on Unsplash

Acrescento que também Saturno, como representante dos limites desenhados inconscientemente para contenção do Self, precisar ser encarado como parte desse diálogo transformador proposto pela Astrologia. É preciso, portanto, realizar o casamento – astrológico e psicológico – entre os dois, seja por interesse, seja por amor.

Comentários finais

Ao final desta breve jornada, ao longo dessas semanas, não tenho certeza de ter chegado onde gostaria, em termos pessoais. Talvez a pretensão de trazer à tona conteúdos da sombra seja impossível de realizar de forma consciente, independentemente do esforço intelectual que se possa fazer. Em relação a este objetivo, sigo na caminhada, a partir de experiências de caráter mais Yin, tais como a meditação, as constelações familiares, as terapias bioenergéticas; e de tipo Yang, especialmente a análise de sonhos junguiana.

Obviamente, o tema deste estudo não se esgota nestas linhas, e isso certamente nunca foi uma das intenções desta pesquisa. Entretanto, creio ter alcançado, pelo menos, a modesta meta de argumentar a favor da importância de uma análise astrológica dos aspectos entre Saturno e Lilith, e de seus respectivos posicionamentos, no mapa astral de cada indivíduo.

Parece claro, a partir da reflexão proposta, que a complexidade destes dois símbolos da psique humana não pode ser um entrave à exploração astrológica de suas nuances. Afinal, se cada um de nós é uma original composição mostrada por sua mandala astral e matizada pelas condições empíricas de desenvolvimento ao nosso alcance, faz todo o sentido analisar como esses dois pontos estão afetando o conjunto.

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Casamento para o bem interior.

Assim, não apenas as paradoxais e dialógicas relações entre Sol e Lua, Vênus e Marte, Mercúrio e Urano, entre outras que possamos apontar, são importantes para a montagem do quebra-cabeça. Um retrato mais completo do indivíduo pode ser auxiliado pela consideração das posições e aspectos de Lilith e Saturno, e do que as informações extraídas daí podem significar em termos psicológicos e inconscientes.

O casamento entre esses dois arquétipos não é um desafio pequeno. Tanto do ponto de vista da análise astrológica, quanto, e especialmente, de uma perspectiva psicológica interna. Sem uma relação construtiva entre os dois, contudo, corre-se o risco de jamais integrar duas dimensões essenciais da psique humana: o masculino disciplinador, que se interessa pelo crescimento, e o feminino selvagem, que ama a expressão criativa.

Pois são essas duas dimensões, ao fim e ao cabo, que fazem de todos nós expressões vivas das estrelas.

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Poeira das estrelas. Photo by Eidy Bambang-Sunaryo on Unsplash

 

Referências

ARROYO, Stephen. Astrología, Karma y Transformación. Las dimensiones interiores del mapa natal. Buenos Aires: Editorial Kier, 2015. 3ª ed.

ENGELHARD, Suely. O renascer de Lilith. Junguiana. Revista Brasileira de Psicologia Analítica. Nº 15, dez. 1997, p. 28-41.

GREENE, Liz. Saturno. O Senhor do Karma. São Paulo: Pensamento, 1995. 10ª ed.

HURWITZ, Siegmund. Lilith – The first Eve. Historical and Psychological Aspects of the Dark Feminine. Zurich/ Switzerland: Daimon Verlag, 2012.

JACOBS, Tom. Lilith: Healing the Wild. GNU Free Documentation License, 2008.

KOLTUV, Barbara Black. The Book of Lilith. Lake Worth/FL: Nicolas-Hays, 1986.

SICUTERI, Roberto. LilithA Lua Negra. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.

STONE, Pauline. A Astrologia do Karma. Um manual de astrologia para a Era de Aquário. São Paulo: Pensamento, 1997. 12ª ed.

TIERNEY, Bil. Las Doce Caras de Saturno. Buenos Aires: Editorial Kier, 1997.

WITT, Harriet. Saturn: A Heavy Burden or a Solid Base? The Mountain Astrologer. June/July 2016, p.16-19.

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[1] Obviamente, isso é objeto de uma investigação empírica, que não caberia nos limites da reflexão aqui proposta. Fica, contudo, a sugestão para futuros estudos.

2 respostas para “Saturno & Lilith – Paradoxo essencial a serviço do desenvolvimento psíquico IV”

  1. Magnifico!! Almejo ser uma expressão viva das estrelas!!

    Obrigada por sua generosidade e dedicação admirável ao tratar desta dimensão arquetípica tão complexa e desafiadora de lidar. O texto “Paradoxo Essencial do Desenvolvimento Psíquico” nesta integração entre Lilith e Saturno é muito valioso, possui um imenso poder transformador a medida que se avança nas palavras. Em meu caso interpretei como alavanca de Arquimedes. Rsss.. “Da-me uma alavanca que moverei o mundo”. Permita-me! Seu artigo talvez tenha sido aquele “ponto de júbilo” de uma jornada de autoconhecimento que iniciei ano passado. Sem perceber, estava sendo alimentada por Lilith e Saturno, transbordando esforços para lançar luz à sombra, energia para enfim, aceitar esse casamento! Abriu caminhos.

    Em meu mapa tenho Llilith em capricórnio, conj. Nodo norte, na casa 3 e em oposição a Saturno (Dedo de Deus) em câncer na 9. Saturno quadra o meu Sol e Plutão na 12. Comunicar e expressar a criatividade ou demonstrar atributos com autonomia, resultavam sempre em movimentos reprimidos diante de um sentimento de insignificância subjugada por fantasmas! Um falso self despojado de integração é um veículo desgovernado rumo ao precipício.
    Estou feliz por ter conectado as Cronicas Uranianas… É um privilégio te ler!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Querida Clara! Fico muito feliz de ter conseguido, ainda que brevemente, estar contigo nessa jornada tão difícil, mas tão necessária!, de autoconhecimento. Sim, com todos esses posicionamentos natais não havia como você se furtar a essa caminhada. 🙂 Grande privilégio saber de ti e de tantas possibilidades abertas com o compartilhamento da minha própria caminhada. Vamos juntas! Grande abraço!

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