Lilith em Aquário: os novos tempos são agora

Quem tem alguma familiaridade com a Astrologia sabe que os trânsitos dos planetas pelo céu são complexos e formam um verdadeiro balé cósmico a cada momento. Ou seja, não dá para analisar o panorama de uma época apenas por um trânsito, seja de um planeta ou de qualquer ponto do céu. Assim como também não é possível analisar uma Carta Natal, com todos os posicionamentos de 10 diferentes planetas e outros tantos pontos, apenas pela posição do Sol em determinado signo.

Feita essa ressalva, esclareço que esta postagem tem como objetivo analisar algumas das possíveis influências do trânsito de Lilith no coletivo, especialmente em relação ao discurso público e aos temas que mobilizam a opinião pública em determinados momentos. Como essa energia feminina disruptiva vem sendo tratada pela opinião pública nesse período?

Mas, antes de iniciar a análise, cabe uma pergunta: por que Lilith, afinal, teria uma influência nesses processos coletivos de expressão?

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Símbolo da Lua Negra

Bem, sabemos que a Lua Negra promove uma “inversão de valores” nos signos por onde passa, ao contrário da ação da Lua, que enalteceria as características do signo por onde passa. Como afirma Delphine Jay, Lilith representa o princípio da impessoalidade, cujo poder é expresso nos feitos extraordinários e criativos, e não necessariamente naquelas ações cotidianas comuns.

Em outros termos, Lilith “descreve as necessidades impessoais do inconsciente coletivo, enquanto a Lua descreve as necessidades emocionais da alma, do inconsciente pessoal” (Jay, 2010, p.15).

Se é assim, e Lilith mostra como a sombra coletiva atua dentro de cada um de nós, é interessante que possamos analisar como ela influencia, em cada momento histórico, essa sombra coletiva. Ainda que haja uma manifestação individual própria dessa energia em cada carta natal.

Individualidade no coletivo

De agosto de 2018 até maio desde ano, Lilith está transitando pelo signo de Aquário. Em postagens anteriores, analisamos os efeitos de seu trânsito por Capricórnio, especialmente em relação à Saturno, que ainda se encontra neste signo. Se Capricórnio representou a materialização de atos e fatos de questionamento e/ou reforço da submissão feminina pelos homens, o que poderia significar a passagem de Lilith por Aquário? E como essa energia está se manifestando coletivamente?

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Revolução coletiva ou individual? Photo by Valentin Salja on Unsplash

Inicialmente, cabe informar que Aquário, regido por Saturno e Urano, traz os temas do desapego afetivo e da expressão da individualidade dentro do coletivo para nossa reflexão. Rebelde, revolucionário, excêntrico, inovador, original são apenas alguns dos termos usados para descrever o arquétipo do décimo-primeiro signo do Zodíaco.

Se Lilith traz consigo o movimento de objetividade e impessoalidade para o ponto no qual se encontra na Carta Natal, podemos deduzir que uma postura revolucionária, rebelde e do contra podem surgir com maior ênfase naqueles que têm esse posicionamento. Por outro lado, pode haver, paradoxalmente, uma extrema identificação com a sombra coletiva caso essa energia não consiga ser trabalhada de forma produtiva. Nesse caso, as questões coletivas serão sentidas como pessoais.

Essas tendências também podem ser expressas coletivamente, portanto, nos tempos em que Lilith estiver transitando por Aquário. Ou seja, podemos ser fisgados pela sombra e adentrar nela enquanto coletivo ou, ao contrário, realizarmos um processo de desapego e de afastamento das polêmicas sociais, o que nos levaria a extremos individualistas.

Abre as asas sobre nós?

A Lua Negra em Aquário, portanto, pode ser um símbolo para a liberdade acima de tudo, entendida como um valor supremo e, por isso mesmo, em questionamento. Ainda que seja a liberdade que o coletivo determina.

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Liberdade para alçar quais voos? Photo by Chris Sabor on Unsplash

Energeticamente, Lilith pode enfatizar algumas das qualidades do arquétipo aquariano, especialmente por também ter uma manifestação prática no coletivo, por exemplo, ao nos trazer objetividade. Além disso, é razoável supor que isso aconteça pela proximidade de Lilith com Saturno, que também rege o signo de Aquário.

De certa forma, então, o trânsito de Lilith por Aquário representa uma continuidade das questões trazidas à tona por Capricórnio e que dizem respeito às formas como feminino e masculino estão sendo expressados em nossas coletividades.

Um exemplo interessante dessa tendência é a tipificação do crime de “importunação ofensiva ao pudor” no Brasil. Desde setembro de 2018, condutas como “passadas de mão”, “beijos roubados” ou divulgação de cenas de estupro, infelizmente ainda tão comuns no cotidiano brasileiro, podem levar a pena de 1 a 5 anos de reclusão[1].

Este foi o primeiro Carnaval em que atos como esses puderam ser denunciados. O que, convenhamos, não é uma mudança trivial no nosso cenário social.

Aprisionamento da mãe

Como destacam várias astrólogas que estudam a Lua Negra, o signo no qual se encontra esse ponto astrológico mostra a estratégia que a mãe do indivíduo demonstrou no mundo, a tonalidade, a nuance da mãe que foi absorvida pelo sujeito enquanto bebê, especialmente antes da articulação da linguagem.

Até os sete anos, a estratégia da mãe é a mesma da criança. Lilith também trata, afinal, da memória genética das sensações intrauterinas, dos sentimentos viscerais, dos talentos em estado bruto que podem se manifestar apenas de forma pulsional, como ressalta Vanessa Guazzelli Paim.

No caso de uma Lilith em Aquário, a sensação que o bebê absorve é a de que a mãe se sentiu aprisionada por ele, ficou sem liberdade de movimentos. Isso pode levar a uma rejeição da mãe – concreta ou inconsciente –, e a uma certa frieza que será sentida pela criança. A gestação ou parto podem ter sido difíceis, a gravidez pode ter sido de alto risco ou indesejada.

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Mais uma carga no caminho? Photo by Aswin on Unsplash

O indivíduo com Lilith em Aquário aprenderá, portanto, a se distanciar da rejeição materna, mas, ao final, se sentirá incompreendido. Achará um absurdo estar vivendo neste mundo e dessa sensação surgirá uma inquietação crítica dos modelos sociais. Pessoas com esse posicionamento são transgressoras por natureza, visionárias que ultrapassam os limites socialmente impostos.

As opiniões inovadoras e, principalmente, questionadoras dos modelos tradicionais de sociedade e de relações humanas são uma decorrência natural deste trânsito, portanto. Não à toa, a internet foi inundada nos últimos meses por postagens que questionam variadas situações enfrentadas pelas mulheres: aborto, violência, desigualdade no trabalho, amamentação, etc.

Quarta Onda Feminista?

Vários analistas relacionam a quantidade de postagens, organização de eventos, memes e hashtags com temáticas feministas que circulam na rede desde 2012 com o que seria a “Quarta Onda do Feminismo”. Estaríamos, portanto, na fase digital do movimento iniciado no século XIX.

Se, em 1848 as primeiras feministas reivindicavam que as mulheres tivessem os mesmos direitos que os homens – voto, propriedade, trabalho, estudo, etc. – hoje as preocupações estão relacionadas com o direito ao próprio corpo. O enfrentamento dos diferentes tipos de violência e discriminação sofridos pelas mulheres e o direito à escolha pelo aborto são as duas questões principais nessa temática.

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Igualdade AGORA, diz o cartaz. Photo by Shaojie on Unsplash

Como ressalta Jay, Lilith em Aquário fornece uma exagerada orientação para o futuro, resultando num ponto de vista liberal e humanitário. “Tudo deve servir a um propósito prático direcionado ao futuro, com o qual eles se relacionam melhor do que com o presente. Eles estão focados em ideias progressistas mais do que nas contemporâneas, e se algo não serve a esse propósito, será descartado. É a promessa do amanhã que importa!” (Jay, 2010, p.46).

Por conta dessa orientação para o futuro, pessoas com esse posicionamento não toleram circunstâncias que dificultam o alcance de suas metas, ou tornam o futuro apenas uma promessa distante, um objetivo difícil de ser alcançado.

Essas pessoas não abrem mão facilmente de sua liberdade. Não gostam de se sentir presas a padrões que não lhes servem mais. E como poderiam, se absorveram de suas mães uma sensação de aprisionamento?

Compulsão e repulsão pelo poder

Aquário é o signo oposto a Leão – onde o poder pessoal está exaltado pela regência do Sol – e trata das questões do coletivo, representadas pelos insights uranianos e pelos limites saturninos. Não é de se estranhar, portanto, que a grande sombra aquariana seja a sombra do poder, pois o maior medo da Lilith aquariana é o da impotência.

Impotência frente ao grande poder exercido pelo outro. Poder esse que, inclusive, pode acabar com sua própria existência, como nos casos de feminicídio; ou provocar uma humilhação íntima e pública insuportável, como nos casos de estupro e de vazamento de nudes.

Por isso, quem tem esse posicionamento tende a sentir repulsa por pessoas fracas e indisciplinadas. E não por outro motivo, será necessário aprender a pedir ajuda ao longo da vida, bem como não tentar dominar os demais. Um terceiro aspecto conectado à essa sombra é a necessidade de desenvolver um sentido de solidão, para compreender o próprio poder interno, desconectado dos grupos e do coletivo.

A demonstrator depicting lacerations is seen during a peaceful march against the gender violence in Santiago
Protesto contra violência contra as mulheres no Chile. 

Faz sentido, portanto, perceber a intensificação na organização coletiva das mulheres, especialmente com o uso da internet e das redes sociais, em grandes movimentos coletivos que denunciam situações vividas pessoalmente, especialmente aquelas relacionadas com o abuso sexual. Afinal, esses grupos de afinidade são uma forma de reafirmar o poder do coletivo frente à vulnerabilidade individual, servindo quase como um escudo de proteção aos indivíduos fragilizados.

As hashtags #MeToo (eu também, em inglês), #NiUnaAMenos (nenhuma a menos, em espanhol), #NãoÉNão, #MexeuComUmaMexeuComTodas, #NãoSejaUmPorquê, #MeuMotoristaAbusador, entre outras, servem para conectar pessoas que não se conhecem, mas compartilham de sentimentos comuns de revolta, medo, raiva, indignação e sofrimento.

Representação política 

Segundo Jay, uma forma de liberar essas tensões internas causadas pelo posicionamento de Lilith em Aquário pode ser por meio da vocação, geralmente conectada com invenções, interesse científico e tecnológico, ou excentricidades diversas, tais como ciências ocultas e novidades de todo tipo. Isso será enfatizado se a vocação puder ser aplicada ao bem comum e ao serviço prestado à comunidade.

As pessoas com Lilith aquariana também tendem a mudar de grupos de amigos ao longo da vida, podem ser consideradas rebeldes sem causa, mas geralmente conseguem rir de suas próprias tragédias – aliás, o bom humor é outro traço comum a todas as Liliths em signos de ar.

Por terem essas características, trabalham bem com públicos transgressores, por exemplo, na reabilitação de criminosos; ou como cirurgiões, pois fazem cortes precisos. Outra forma de expressar essa vocação revolucionária, obviamente, é o ativismo político.

U.S. President Trump delivers his second State of the Union address to a joint session of the U.S. Congress in Washington
Congressistas norte-americanas do Partido Democrata usam branco durante mensagem presidencial em 5 de fevereiro de 2019. Foi uma homenagem às mulheres que lutaram pelo direito ao voto feminino no início do século XX, conhecidas como “suffragettes”.

Não à toa, a prática política tem sido reforçada entre as mulheres, com números recordes de mulheres candidatas aos cargos eletivos em 2018, tanto nas últimas eleições brasileiras, quanto no pleito norte-americano. No Brasil, a representação feminina na Câmara dos Deputados aumentou 51%, enquanto nas assembleias estaduais ampliou-se em 35%.

Durante as eleições, em ambos os países, grupos de mulheres criaram campanhas contra candidatos e políticos que representam visões conservadoras e divergentes desse ponto de vista futurista e visionário da Lilith Aquariana.

Afinal, Lilith passa por Aquário para nos indicar o que almejamos para o futuro, enquanto coletividades. Não é provável que ela deseje um retorno ao passado. Especialmente, por se tratar de Lilith, que traz verdadeiros terremotos nas áreas da psique por onde transita para que consigamos ampliar nossas consciências.

Talvez seja tempo de olhar para a frente e para o que, inevitavelmente, virá. Aceitar que rosa e azul fazem parte de nossas predileções cromáticas. Sem receio das mudanças, e sem nostalgia pelo que já passou.

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Referências

JAY, Delphine Gloria. Interpreting Lilith. Tempe/AZ: American Federation of Astrologers, 2010.

 

[1] A Lei 13.718/18, de 24/09/18, incluiu no Código Penal Brasileiro o Artigo 215-A, Importunação Ofensiva ao Pudor, tipificando as condutas de Importunação Sexual e de divulgação de cena de estupro, ambas de ações públicas incondicionadas, revogando o artigo 61 da Lei de Contravenções Penais. Acesse mais detalhes aqui.

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