O sacrifício de Lilith nas redes: feminicídio online para ter curtidas?

Dois dias antes do eclipse lunar, no domingo 14 de julho, a notícia de um feminicídio transmitido via Instagram e outras redes sociais, como os sites Discord e 4chan, sacudiu os Estados Unidos e movimentou não apenas o ambiente digital, mas toda a comunidade comunicativa daquele país.

A adolescente Bianca Devins, de 17 anos, foi cruelmente assassinada, segundo a polícia, por seu namorado, Brandon Clark, de 21, na madrugada de domingo quando eles retornavam de um show que haviam assistido em Nova Iorque. O crime aconteceu em uma rua da cidade de Utica, onde ambos moravam.

bianca devins
A jovem Bianca na foto que ganhou as redes durante a semana. Divulgada pela BBC.

O toque perverso, contudo, foi além do crime: Brandon postou fotos do corpo da jovem nas redes sociais e tentou se matar quando os policiais chegaram ao local, alertados por internautas e por um telefonema dele próprio. Segundo alguns relatos midiáticos, enquanto era conduzido ao hospital, ferido, ele postava as imagens em seus perfis.

As fotos permaneceram nas redes durante várias horas, e foram compartilhadas à exaustão por milhares de internautas. As curtidas nas redes sociais de quem compartilhou as cenas chocantes do crime foram ampliadas, o que provavelmente alimentou o fenômeno. Comentários sobre os motivos do assassinato, que incluíam os boatos sobre a vida sexual da vítima, continuaram circulando durante toda a semana. Afinal, Bianca era modelo e tinha um canal do YouTube onde falava sobre sua vida.

A polêmica, contudo, não se limitou às fofocas sobre as circunstâncias do crime e sobre a vida dos envolvidos. Mídia e ativistas criticaram veementemente as redes sociais por demorarem tanto tempo para retirar o conteúdo criminoso de suas plataformas. Coincidência ou não, o Instagram retirou a visibilidade pública da contagem de curtidas dos perfis na quinta-feira, 18 de julho.

Catarse coletiva?

As redes sociais não podem ser acusadas da criação do fenômeno do sensacionalismo, muito mais antigo e reiterado por qualquer tipo de mídia, seja digital ou analógica. Nos Estados Unidos, por exemplo, ainda no século XIX parte da imprensa era denominada de Yellow Press, por conta da estética popularesca dominante naquelas publicações. No Reino Unido, os tabloides que exploram fofocas, preferencialmente sobre a vida sexual da família real, são outra expressão do fenômeno.

yellow kid
A Yellow Press (Imprensa Amarela) teve seu nome derivado do personagem Yellow Kid, presentes nas histórias em quadrinhos publicadas nos jornais sensacionalistas dos EUA.

No Brasil, depois da Imprensa Marrom existente desde o século XIX e eternizada nas páginas do Notícias Populares, temos a proliferação dos programas policialescos que exploram as tragédias cotidianas da população mais pobre e os alarmantes índices de violência das metrópoles.

Alguns autores, ao abordarem o fenômeno do sensacionalismo na imprensa escrita, destacam a “influência do meio como catarse” (ANGRIMANI, 1995, p.17). O relato sensacionalista, portanto, é um “meio, como artifício de realização, por procuração, do inconsciente” (Idem, p.17). Ou seja: o relato tem como função principal dar vazão às nossas pulsões e desejos mais obscuros, reprimidos pelo bem da coletividade.

É na exploração das perversões, fantasias, na descarga de recalques e instintos sádicos que o sensacionalismo se instala e mexe com as pessoas. É no tratamento anódino da notícia, quase sempre embalada em um caleidoscópio perverso, que o sensacionalismo se destaca dos informativos comuns (ANGRIMANI, 1995, p.17).

Não admira, portanto, que possamos explicar a preferência de alguns veículos de mídia, do ponto de vista do lucro empresarial sobre a exploração desses relatos, por esse tipo de narrativa informativa. Os veículos sabem que terão muitos acessos e que esses temas trarão interesse do público.

A questão contemporânea, contudo, parece ainda mais aguda: milhares de pessoas, por meio dos seus perfis nas redes sociais, participaram diretamente na proliferação das imagens de um corpo feminino com a garganta cortada. Podemos questionar se essas pessoas são movidas apenas pela busca de curtidas.

Sentimentos viscerais

Em postagem anterior, comentei o fato de que Lilith está transitando pelo signo de Peixes desde o dia 4 de maio. Ela ficará aí até 27 de janeiro de 2020. Esse posicionamento, que nos remete à fluidez incessante da água, traz à tona sentimentos viscerais e profundos, conectados à compulsão/pulsão, fazendo com que tenhamos que lidar com nossas emoções de forma bastante direta.

A ambiguidade pisciana, que tanto pode nos levar ao medo da intimidade, quanto à entrega absoluta, ou, alternativamente, à fuga pelo sonho, é um elemento importante. A complexidade das relações humanas é ressaltada nesse período e pode haver um extremo contato com a loucura alheia. Todos os assuntos daí derivados podem aparecer de forma aguda: amores impossíveis, tragédias amorosas, masoquismo, infidelidade, tabus sexuais.

frankie-cordoba-N2VNbfkt6Mw-unsplash
Relações humanas são sempre complexas, especialmente quando a sexualidade está envolvida.  Photo by Frankie Cordoba, on Unsplash.

Não sabemos as reais circunstâncias do assassinato de Bianca e não nos cabe especular sobre isso, ainda que a passionalidade embutida na ação seja clara à maioria de nós. Não sabemos se o criminoso tem algum distúrbio mental severo ou se as motivações dele foram os tradicionais ciúmes, insegurança, ressentimento e machismo, presentes na maioria dos feminicídios.

O que esse caso ressalta, contudo, é uma tendência contemporânea presente em vários crimes recentes: o desejo de popularidade gerado pela conduta criminosa. Assim como os atiradores em massa que filmam seus ataques e postam no Facebook, o rapaz postou as fotos do corpo dilacerado na internet. Não satisfeito, telefonou para a polícia e postou, ao vivo, sua própria prisão.

Tragédia tecnológica

Parece claro que o assassino tinha o desejo de se tornar conhecido e reconhecido por sua ação brutal. Pela liberação de sua pulsão de morte. Por romper com as regras sociais. Mas sua violência, neste caso, diferentemente de outros crimes, não é anonimamente direcionada à massa.

Sua violência se volta contra a garota que havia seduzido e por quem havia sido seduzido, com quem se relacionava de alguma forma. Uma jovem bonita, suficientemente livre para ir a um show com o namorado em outra cidade, e detentora de potência criadora, tanto sexual, quanto de expressão individual, por meio das próprias redes sociais.

morte bianca devins

No mapa para o momento aproximado do crime, Lilith em Peixes está na Casa VIII, exatamente a área da morte, das crises, do corpo, da intimidade, da sexualidade. Em outros termos, o aparecimento de conteúdos pulsionais que levam a transformações profundas e mexem com esses temas estava presente na energia daquele momento.

Além disso, Lilith estava recebendo um sextil de Urano em Touro na casa X. No caso de Lilith, esse aspecto geralmente benéfico em outras configurações, revela que ainda existe uma tensão latente por se manifestar. Pode haver originalidade de pensamento e de sentimentos com esse aspecto, mas excentricidade, audácia e rompimento de limites são outras possibilidades.

Urano, conectado com acidentes e situações bruscas, também nos diz do mundo digital, das inovações e novidades tecnológicas. Além disso, a aceitação da própria singularidade pode ser facilitada nesse aspecto. Fato realmente triste que essa energia de materialização e reconhecimento social (Casa X) tenha se manifestado de forma tão trágica e perversa.

Prazer reprimido

Não consigo deixar de pensar, além disso, na necessidade de despedaçamento de um feminino criativo que ameaça uma potência que se diz racional. Ou a tentativa de controle sobre a irrupção dos conteúdos sombrios no mundo consciente, processo que todos nós realizamos o tempo todo.

umberto-dVOq_uij30c-unsplash
Por que a necessidade de despedaçar o corpo feminino? Photo by Umberto on Unsplash

No caso em questão, não apenas o assassino parece ter levado extremo essa tentativa como também os internautas, desejosos de projetar nele suas próprias pulsões de morte. Assim como projetar em Bianca seus próprios desejos reprimidos. Afinal, o mote dos comentários e fofocas na rede não é outro que a vida sexual da adolescente e os termos do relacionamento com o criminoso.

O tom falsamente moralista do sensacionalismo aparece mais uma vez aqui, como de costume nos casos do feminicídio: à vítima mulher cabe a responsabilidade por ter “atraído” o próprio algoz, seja por descuido, seja por lascívia. “Nada demais”, portanto, que pague com a vida por sua própria transgressão: a de ter vivido livremente sua potência sexual.

Não espanta que Lilith estivesse na Casa VIII no momento do crime, e que Vênus e o Sol, em Câncer, estivessem acompanhados do Nodo Norte na Casa XII. Presenciamos a irrupção da sombra coletiva de forma visível nas ações do jovem assassino. Tanto ele, quanto Bianca, acabam sendo os “bodes-expiatórios” das pulsões coletivas que não ousam se mostrar à luz do dia.

O Sol, porém, sempre acaba iluminando, de alguma forma, os recônditos da nossa alma para que a podridão possa vir à tona de forma pública. E parece perguntar como a lógica, o raciocínio e a consciência humana podem ser reprimidos de forma tão vil, a ponto de milhares de pessoas acharem prazer estético no compartilhamento de morte alheia e encontrarem justificativas para os atos criminosos.

linus-nylund-JP23z_-dA74-unsplash
O Sol de Casa XII ilumina também nosso inconsciente para que possamos ver as emoções que foram escondidas. Photo by Linus Nylund on Unsplash

Vênus em Câncer, também reprimida na Casa do inconsciente coletivo, parece também nos dizer: que sociedade é essa que atrela a satisfação à morte? A popularidade aos impulsos de destruição? Os afetos ao horror e à aniquilação do outro? Como deixamos tão desprotegido o nosso feminino vital, a nossa fonte de prazer e de criação, a ponto de que se convertesse em vítima das nossas pulsões mais aterradoras?

Feminino despedaçado

A escolha da arma é outro fator relevante: não há tiros, algo feito à distância, de forma “asséptica” e impessoal, mas o uso da faca, para dilacerar o corpo do outro. Não basta, portanto, a morte: é preciso provocar o esfacelamento do corpo assassinado, fragmentá-lo, acabar com sua unicidade, destitui-lo de seus poderes criativos em uma atitude verdadeiramente “diabólica”, para que deixe de simbolizar e significar.

O despedaçamento significa uma tentativa de desconexão do outro, por meio da separação do próprio corpo. Talvez seja uma tentativa invertida para alcançar a própria reconexão consigo mesmo, o religare que dá origem à palavra religião? Afinal, opostos ao Sol e Vênus estavam Saturno e Plutão em Capricórnio, tentando materializar algo internamente por meio do próprio corpo e da própria saúde. Questiono se isso poderia ter a ver com saúde mental, dadas as reações dos usuários da internet ao crime.

andre-tan-IW8qQeYP1tA-unsplash.jpg
Estamos tentando nos reconectar com a nossa fera interior? Mas a que custo para os outros e para nós mesmos? Photo by Andre Tan on Unsplash

E também é preciso ficar famoso com a ressignificação e posse, ou o total controle do corpo do outro. É preciso garantir as curtidas e compartilhamentos nas redes mostrando que dele dispõe totalmente. É preciso ser mais popular que Bianca, utilizando Bianca para isso. É preciso garantir um lugar na posteridade, mesmo que por meio da infâmia. Os 15 minutos de fama digital estão assegurados, mesmo que às custas da vida dela.

Marte e Mercúrio, ambos em Leão, transitavam pela Casa I do mapa do momento do crime. A tentativa de sobressair à multidão, de ser o centro das atenções, de chamar o foco do debate público para si mesmo por meio de ferramentas de interação era uma atitude compatível com a energia disponível no momento.

Lembrando ainda que a Casa VII estava em Aquário, o que novamente nos remete ao uso das tecnologias digitais e do ativamente das comunidades virtuais como espaço de reconhecimento e popularidade.

Aceitação e honra

Casos como esse não fáceis de encarar. Durante a leitura de uma análise das repercussões sobre as redes sociais, tomei conhecimento do fato e, imediatamente, tive a necessidade de escrever sobre isso. O turbilhão de emoções que esses relatos nos provocam não ocorrem à toa. Dizem do nosso mundo interior.

Dizem da empatia e da sensibilidade que temos com o que nos afeta a todos. Com o que é humano, afinal. Nossas pulsões reprimidas, nossos desejos mais secretos, nossos tabus e nossos sentimentos menos nobres.

peter-forster-ouVAsbiwzlo-unsplash
A sombra também está dentro de nós, e precisamos reconhecê-la. Photo by Peter Forster on Unsplash

Analisando a passagem de Lilith em Peixes, penso que talvez seja um bom momento para voltarmos a aceitar a sombra em nós mesmos, para que possamos nos aproximar dela e trabalhar de forma mais saudável as energias que dela emanam. Para que não fiquemos entregues à compulsão, sendo dominados por nossos instintos mais vis. E para que possamos perceber que todos nós somos feitos de luz e sombra.

Aceitar e honrar o feminino selvagem que nos pertence, sejamos homens ou mulheres, pode ser um caminho possível para conviver melhor com essa energia. Para que possamos nos relacionar com ela de forma saudável, e não sejamos compelidos a exterminá-la de qualquer forma, seja por meio de crimes ou por meio do compartilhamento obsessivo nas redes sociais.

Da minha parte, continuarei nesse exercício pessoal. Este texto é parte dele.

 

Referências

ANGRIMANI, Danilo. Espreme que sai sangue. Um estudo do sensacionalismo na imprensa. São Paulo: Summus, 1995.

JAY, Gloria Delphine. Interpreting Lilith. Tempe: American Federation of Astrologers, 2010. 5ª reimpressão.

3 respostas para “O sacrifício de Lilith nas redes: feminicídio online para ter curtidas?”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s