Vênus em Gêmeos no coração do Sol e a reflexão sobre nossos valores

Sonhei, poucas horas antes do eclipse lunar em Sagitário desta sexta, 5 de junho, que dançava um samba com um professor bem mais velho do que eu. O início da dança era caótico. Ele parecia estar lutando ou dançando capoeira e eu, nervosa, não compreendia o que devia fazer e precisava me defender dos golpes/passos. Até que, em determinado momento, ele parece desistir da coreografia vigorosa de funk e me abraça.

A partir daí, eu fecho os olhos e respiro profundamente, tentando me acalmar. Lembro de pensar que eu só precisava me conectar com ele. Começamos a dançar, nos movendo graciosamente pelo salão cheio. Alguns rodopios depois, meu parceiro havia virado um garoto de uns 10 anos, ágil e gentil, que sorria para mim.

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Será que esses cangurus estão dançando ou lutando? Photo by David Clode on Unsplash

Assim que acordei, pensei em Mercúrio, um arquétipo da juventude e das trocas, Deus das comunicações e do aprendizado, que se disfarça de várias formas para nos entregar suas mensagens. Mercúrio está em Câncer, fluido e escorregadio, porém pronto para se defender de qualquer ameaça sob uma dura carapaça.

Ao longo do dia, porém, Marte em Peixes – no céu e na minha Carta Natal – se fez presente, e eu lembrei que, antes de ser um guerreiro eficiente, Ares, o Deus da Guerra, é um exímio dançarino. Não por acaso, dança, luta e sexo compartilham de alguns ingredientes coreográficos comuns. E, por que não dizer, de algumas sensações corporais também.

E com Marte, veio também Vênus, ou Afrodite para os gregos, a deusa do Amor e da beleza, do equilíbrio e da harmonia que teve um romance ardente com o Deus da Guerra. Afinal, a dança e todos os tipos de relacionamentos que nos mobilizam afetivamente estão na esfera de Vênus.

Polaridade e duplicidade

Nesta semana, ouvi um podcast com Tony Howard e Vanessa Montgomery na Astrology University e uma frase dela ficou ecoando em mim: “Marte em Peixes é um guerreiro da paz”. Muito a ver com aquela onda de resistência pacífica disseminada por Gandhi ou o discurso de “eu tenho um sonho” do Martin Luther King Jr. Não por acaso, essas duas figuras históricas têm servido de inspiração mundo afora para vários protestos e manifestos contra a injustiça nas últimas semanas.

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Uma das imagens dos protestos da semana nos Estados Unidos mostra o chefe do Departamento de Polícia de Nova Iorque, Terence Monahan, abraçando uma manifestante. Craig Ruttle/AP

De qualquer forma, a temporada geminiana de 2020, que começou com o ingresso de Vênus neste signo no dia 4 de abril, seguido por Mercúrio em 12 de maio e pelo Sol em 21 de maio, está trazendo uma profusão de imagens que nos remetem ao conteúdo das mensagens que estamos trocando entre nós neste momento histórico. E também ao papel que desempenhamos, enquanto indivíduos, nas coletividades das quais fazemos parte.

Questionamento de discursos e atitudes até então considerados normais – especialmente aqueles que trazem referências machistas ou racistas – tem sido a tônica desde maio. Como tratamos os demais seres humanos? E como podemos permanecer conectados afetivamente em tempos de proliferação de discursos de ódio e isolamento social? Essas parecem ser as perguntas centrais desta temporada.

Como destaca a astróloga Julija Simas, o signo de Gêmeos representa as polaridades, a sombra e a luz, o duplo, a dualidade inerente ao humano. Intelectualidade, informação, circulação, flexibilidade, adaptabilidade, velocidade, curiosidade, comunicação, racionalidade, inteligência, agilidade e aprendizagem também são palavras do universo geminiano.

Comunicação com o mundo

Gêmeos é um signo YANG, de polaridade masculina, conectado com a disseminação de informações e com as comunicações, de forma mais objetiva, capaz de olhar para todos os lados de uma questão. Representa o arquétipo da curiosidade, da busca por novas possibilidades, da adaptabilidade.

Obviamente, por representar a polaridade e ambiguidade humana, ele tem um lado sombrio que pode significar nervosismo, ansiedade, superficialidade, volatilidade, mudanças aceleradas, desestabilização do humor. Fofocas, boatos, mentiras, notícias falsas, excesso de informações desencontradas também são tendências dessa energia em desequilíbrio.

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A informações que você consome estão consumindo você? Photo by Elijah O’Donnell on Unsplash

É um momento interessante para perguntar, portanto, como você está alimentando a sua mente. Como você está se comunicando com os outros e consigo mesmo? Foco na comunicação é essencial neste momento: o que estamos comunicando? O que estamos disseminando? É algo construtivo ou destrutivo para nossos relacionamentos com os outros e com o mundo?

Várias situações que vivenciamos no último mês desafiam nossa habilidade de usar a linguagem para expressar ideias e conceitos, a nossa consciência objetiva do mundo. Estamos em um tempo de renegociação dos nossos termos de convivência social, com todas as novas regras que surgem a cada dia.

Regido por Mercúrio, Gêmeos é um signo de jovialidade, descobertas e redescobertas, e trata da funcionalidade da informação, em oposição à compreensão filosófica do mundo de Sagitário. Mas também traz a possibilidade de enganação, excesso de informação, ambiguidade, e todos os paradoxos desconcertantes da existência humana.

Como afirma Simas, uma frase tipicamente geminiana é “não sabemos nada, precisamos reaprender e nos readaptarmos”. Algo que está ressoando fortemente com o tempo atual de renegociação e readaptação de rotinas trazido pela pandemia.

Conjunção inferior

Em retrogradação desde 13 de maio, Vênus atingiu o coração do Sol dois dias antes do eclipse lunar, em 3 de junho. Nesse momento em que o planeta está conjunto com o Sol, o que os astrólogos chamam de “cazimi”, ele recebe um fluxo de energia, é como se tivesse sido plugado em uma bateria para se recarregar.

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Vênus acaba de receber uma recarga solar na conjunção do dia 3 de junho. Photo by Daria Sheveleva on Unsplash

A conjunção de Vênus com o Sol é um movimento que já era conhecido dos povos antigos e foi descrito no mito da Deusa Inanna, para os sumérios, ou Ishtar para os babilônicos. Nesse momento, o planeta fica invisível aos humanos – eclipsado pela luz solar – e retorna alguns dias depois ao céu no turno inverso. Esse movimento celeste ocorre a cada nove meses e meio, alternando-se entre conjunção inferior, quando o planeta está mais próximo da Terra, e conjunção superior, quando está mais distante.

No mito, a Deusa desce ao inferno na conjunção inferior, ao mundo dos mortos em busca de seu amado que havia morrido, o que representa o movimento psicológico de descermos ao inconsciente para recuperarmos algo valioso que perdemos. Por estar mais próximo da Terra, simbolicamente é como se Vênus “beijasse” a Terra.

Nas conjunções inferiores, como a que experimentamos no dia 3 de junho, Vênus deixa de ser a estrela vespertina (Vésper) que aparece no final da tarde para retornar à sua posição matutina (Lúcifer), aparecendo no céu logo no início da manhã. Ou seja, ela aparece para “nos trazer” a luz da alvorada, por isso o nome de Lúcifer.

Revisão de valores

Segundo Julija Simas, a conjunção inferior representa um momento de experimentação da consciência sobre valores e afetos, especialmente sobre amor e perdas, mudanças em nossos padrões emocionais e situações que nos mostram coisas e sentimentos que precisamos deixar ir.

Esse momento ocorre sempre no meio do ciclo de 40 dias nos quais o planeta fica retrógrado, isto é, parece se movimentar para trás. Aliás, como lembra Simas, esse período tem uma forte simbologia em várias passagens bíblicas também: Noé fica na arca por 40 dias, Jesus passa 40 dias no deserto, reaparece aos seguidores 40 dias depois de sua crucificação, etc.

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Dualidade e polaridades estão presentes no céu com Vênus em Gêmeos. Photo by Daniels Joffe on Unsplash

Estamos passando por experiências típicas de Vênus em Gêmeos, dentro do período de retrogradação de Vênus, em uma situação de quarentena. Quão irônico não é viver esse momento exatamente no período de retrogradação que dura 40 dias? Percebam que a “quarentena” tem esse nome por designar, adivinhem!, um período de 40 dias.

Trata-se de um período propício para revisar e reprocessar todo o aprendizado emocional que tivemos no último ciclo, ou seja, desde a última conjunção inferior de Vênus com o Sol em Escorpião em outubro de 2018. Estamos, portanto, em um momento de germinar as sementes de um novo ciclo. O que você aprendeu neste ano e meio?

Interessante lembrar ainda que Vênus esteve retrógrada em Gêmeos em junho de 2004, em junho de 2008, em junho de 2012 e em junho de 2016. O que você estava revendo nesses períodos? Que relacionamentos e afetos foram modificados nessas datas? O que começou nesses momentos e precisa passar por uma revisão hoje?

Haverá um novo capítulo daquela história? Um retorno para os temas que te mobilizaram naquela época? O início de um novo ciclo? Estamos todos oito anos mais velhos e mais experientes, com mais recursos de acessar esses conflitos e resolvê-los de outra forma, provavelmente mais produtiva e mais integrada com as necessidades da nossa psique atual.

Relacionamentos na quarentena

Toda nossa reflexão e nossas ações estão voltadas para as formas como nos conectamos, como nos comunicamos, como convivemos, como criamos novas formas de realizar atividades cotidianas durante esse período de isolamento social. Além disso, estamos tomando consciência da quantidade de informações que nos ligam aos outros seres humanos e como somos dependentes de diferentes tecnologias para realização de tarefas diárias.

Que padrões de relação humana são significantes para você? Que valores são importantes na sua vida? Como você comunica esses valores aos outros? Como você usa a linguagem para alcançar esses valores? O que é fundamental em sua vida nesse momento? Quais são os recursos que você valoriza? Que recursos da sua vida são impossíveis de abrir mão e lhe trazem satisfação, prazer, conforto, segurança?

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As máscaras se tornaram o novo normal mundo afora, representando uma nova socialidade que emerge. Até as estátuas estão usando. Photo by Tom Barrett on Unsplash

Todas essas questões podem aparecer de forma bastante aguda nesse período. Pois, como ressaltam Howard e Montgomery, estamos desenhando um novo padrão de interação social e de estabelecimento de relacionamentos.

Obviamente, em um momento de revisão de valores, muitos relacionamentos podem ser reestruturados ou mesmo terem um fim. Temos visto como denúncias de agressões aumentaram durante a quarentena, por conta da convivência aumentada entre famílias e casais.

Quando pensamos sobre nossos próprios valores, podemos ver que alguns relacionamentos já não atendem aos requisitos que consideramos fundamentais. Muitas vezes, ambos os parceiros já se modificaram e o período pode abrir uma oportunidade de sair de relações que não atendem mais às nossas necessidades internas.

O mês de junho pode trazer, portanto, um período de criações técnicas intensas – digitais ou não – para o desenvolvimento de novas formas de comunicação e de interação. Pode ser um período de dar forma a novos projetos, especialmente na área do seu Mapa Natal atingida pelo movimento de Vênus. E pode ser uma boa fase para refletir sobre o que lhe traz prazer e satisfação.

Marte e o eclipse

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O eclipse lunar ocorrido durante a Lua Cheia, em 5 de junho, pode intensificar as questões em foco durante o mês, trazendo situações que nos obriguem a lidar com nossas dificuldades internas. Assuntos da polaridade Gêmeos/Sagitário estão pipocando e trazem com eles a possibilidade de uma revisão profunda em nossos valores morais e sociais.

Como achar os fatos no atual contexto informativo polarizado? Onde está a verdade factual no meio da multiplicidade de opiniões e informações a que temos acesso? Estamos excessivamente dogmáticos em nossas opiniões? Conseguimos incluir novas perspectivas em nossa visão de mundo? Estamos julgando os outros a partir do que é publicado nas mídias sociais? Por que temos tantas dificuldades em aceitar as opiniões divergentes?

É interessante perceber que Marte em Peixes, e que faz conjunção a Netuno no dia 13, está em uma quadratura com os luminares no mapa da Lua Cheia. Esse aspecto pode gerar dificuldades de comunicação nos relacionamentos, mal-entendidos e excessivas demonstrações de sensibilidade, excessos econômicos e crises que demandem nossa criatividade para solucioná-las.

Não à toa, protestos e manifestações coletivas em vários países trazem à tona a responsabilidade de cada indivíduo em um momento histórico tão significativo quanto o atual. Marte em Peixes parece nos lembrar que nossas ações individuais são importantes em qualquer contexto, por menores que pareçam frente ao coletivo.

Não é fácil compreender Marte em Peixes, assim como não é fácil entender a miríade de sentimentos que as imagens dos protestos nos causam. Compaixão, sensibilidade e empatia são questões ativadas nesse momento. Talvez o chamado que o guerreiro pacífico está nos fazendo – tão bem representado pelos abraços que manifestantes e policiais passaram a trocar nas últimas semanas – seja o de protegermos aqueles que precisam.

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Quem precisa da nossa proteção? Photo by Alec Favale on Unsplash

Visão além do alcance

Como podemos agir de forma mais coordenada e produtiva para o coletivo? Como podemos usar a solidariedade para agir em nome do interesse geral, e não de forma egoísta? O que eu posso fazer no atual momento para colaborar com a sociedade? Como as minhas crenças e ideologias colaboram com o coletivo nesse momento?

Talvez a ação que Marte nos demanda agora tenha muito a ver com seu relacionamento com Vênus, até porque a lição de Vênus em Gêmeos é aprender as lições trazidas pelos relacionamentos.

Gêmeos, onde estão Vênus e o Sol; Sagitário, onde está a Lua; e Peixes, onde estão Marte e Netuno, são todos signos mutáveis. Isso significa que a ação requerida nesse momento é adaptativa, flexível, sensível ao outro, empática. Talvez seja uma ação inspirada, intuitiva, algo como uma dança.

O que o céu nos pede nesse momento, portanto, é uma mudança de percepção, uma adaptação à nova realidade, uma alteração das nossas ações a partir da expansão da nossa visão de mundo. Onde somos inflexíveis? Onde somos rígidos? Onde é mais difícil a nossa adaptação a novas condições de vida? Reside aí a nossa tarefa de reflexão.

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Como podemos ampliar a nossa visão de mundo e nossas perspectivas? Photo by Orkhan Farmanli on Unsplash

Não espere que alguém solucione o problema que também é seu. Os astros estão perguntando que podemos fazer, neste momento, para tornarmos nossas vidas melhores. Qual a nossa contribuição para a solução dos problemas que estamos vivenciando hoje?

Meditar sobre isso com sensibilidade pode nos trazer as melhores soluções para esse momento dramático na história humana.

 

Referências

GUTTMANN, Arielle. Venus Star Rising. A New Cosmology fo th 21st Century. Santa Fe/US: Sophia Venus Productions, 2010.

HOWARD, Tony; MONTGOMERY, Vanessa. The Cosmic Eye Monthly Forecast: Gemini Season. Astrology University. Disponível em: https://www.astrologyuniversity.com/the-cosmic-eye-monthly-forecast-gemini-season/

REINHART, Melanie. Venus: Queen of Heaven and Earth. Disponível em: https://www.melaniereinhart.com/melanie/VenusRxGemini.htm

SCHULMAN, Martin. Vênus. A dádiva do Amor. São Paulo: Pensamento, 1997. 10ª ed.

SIMAS, Julija. Venus RX in Gemini. June 2020. Cosmic Intelligence Agency.

3 respostas para “Vênus em Gêmeos no coração do Sol e a reflexão sobre nossos valores”

  1. Muito bom. Adorei a dica de olhar onde está Vênus no mapa astral. A minha está na casa 10 em Leão….*rs*. Que as reflexões nos ajude a mudar e a adaptar. Um beijão. Obrigada pelo post.

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