Eleições 2020 e a tessitura da realidade por Lilith em Touro

Não se passou nem um mês de sua chegada ao signo de Touro (21 de outubro), e Lilith já mostrou a que veio neste ciclo. No Brasil ou nos Estados Unidos – apenas para mencionar dois exemplos recentes – a demonstração do poder de resistência do feminino – um verdadeiro “rio subterrâneo” na linda metáfora de Eliane Brum – como motivador da ação social e política se fez sentir nas últimas eleições.

Na semana passada, acompanhamos com expectativa a eleição da primeira mulher a ocupar o cargo de vice-presidente nos Estados Unidos: Kamala Harris. Como se não bastasse, uma mulher filha de imigrantes e negra! E ontem, em quase todo o Brasil, à exceção do Amapá que ainda se encontra no caos do apagão elétrico, percebemos a intensidade de um movimento similar nas eleições municipais.

Kamala Harris foi eleita vice-presidente dos Estados Unidos na semana passada.

Não são os números que mostram isso, afinal as candidaturas femininas às câmaras de vereadores e prefeituras brasileiras alcançaram pouco mais dos 30% exigidos pelas cotas eleitorais dos partidos.

Porém, entre as eleitas, estão mais de uma dezena de mulheres transgênero ou travestis, em capitais como Belo Horizonte e Aracaju – onde foram as mais votadas – ou São Paulo – que teve duas mulheres trans eleitas – e cidades como São Borja e Rio Grande (RS), Carnaúba dos Dantas (RN), Niterói (RJ) e Limeira ou Araraquara (SP).

Duda Salabert foi a vereadora mais votada em Belo Horizonte. Foto de Douglas Magno/El País.

Vereadoras negras foram eleitas nas capitais do Sul do País: Curitiba, Florianópolis – que também teve a eleição de uma mulher indígena – e Porto Alegre. Nessa última, aliás, uma professora negra foi a vereadora mais votada entre os 36 eleitos. Além desses fatos pontuais, as mulheres ampliaram muito sua representação em cidades como Belo Horizonte e Passo Fundo (RS), entre várias outras.

Resistência à violência

Apesar de os números como um todo não serem significativos, acredito que a própria existência dessas candidaturas – sem falar no sucesso retumbante que obtiveram em alguns casos – demonstram o fenômeno de resistência à violência estrutural cometida contra as populações historicamente marginalizadas no Brasil.

Eliane Brum deixou esse ponto bastante claro na sua palestra durante a Feira do Livro de Porto Alegre. E eu aproveito para comentar que tais candidaturas constituem uma verdadeira prova da força material da resistência humana, um belíssimo exemplo da energia de Lilith quando expressa no signo de Touro.

Mulheres indígenas foram alvo de violência desde a chegada dos colonizadores portugueses ao Brasil. Muitos historiadores não hesitam em dizer que o povo brasileiro nasceu do estupro.
Photo by Deb Dowd on Unsplash

Depois do genocídio dos indígenas, cometido desde a chegada dos colonizadores portugueses às costas brasileiras até hoje, e do genocídio dos negros escravizados há quatro séculos, é surpreendente que essas populações consigam não apenas continuar existindo, mas florescendo em novos modos de viver. Além da disposição e força para a luta política.

Nos dois casos, há números em profusão que demonstram a gravidade da agressão sofrida por essas populações ao longo da nossa história: estima-se que mais de 70% da população nativa do Brasil tenha sido exterminada ao longo dos cinco séculos de colonização do território, seja por meio de epidemias trazidas pelos brancos ou por assassinato, como tem acontecido recentemente.

Em relação aos negros, 12,5 milhões de pessoas foram traficadas de vários países africanos durante os séculos XVI, XVII, XVIII e XIX. Dessas, 4,8 milhões de sobreviventes chegaram ao Brasil, onde sofreram por mais de 300 anos como escravizados e continuam sofrendo todo tipo de racismo, humilhação, violência e exclusão desde 1888, quando houve a Abolição da Escravatura.

Não entrarei em detalhes, mas quem quiser analisar os números por si próprio, basta consultar o Atlas da Violência de 2019, produzido pelo IPEA. Vale a pena mencionar ainda que o Brasil é o país que mais mata violentamente a população LGBT em todo o mundo.

Representação política

Mas como conter a nossa surpresa e o nosso encanto ao perceber que, além de sobreviverem, tais populações conseguem mobilizar com dignidade a ação política de forma a vencer toda a estrutura montada para que elas sempre percam? E conseguem expressar a possibilidade de futuros diversos, de novas formas de conviver em harmonia?

Karen Santos, vereadora mais votada em Porto Alegre, fala em dezembro de 2019 em evento na Câmara de Vereadores da capital gaúcha.

Como não se admirar com a força e a perseverança de mulheres que, contando com menos recursos e menos apoio partidário, conseguem vencer as inúmeras barreiras – existentes pelo simples fato de serem mulheres – e se elegem representantes no Poder Legislativo? E ainda o fazem em votações maciças, expressivas do apoio político que suas comunidades lhes dão.

Como mencionei em texto anterior, Lilith em Touro traz a busca de segurança, prazer e conforto como valores fundamentais. A busca pelo bem-viver é um aspecto que pode ser enfatizado nesse trânsito. Não surpreende, portanto, que mulheres preocupadas com a violência que sofrem cotidianamente tenham mobilizado o voto popular.

É da natureza de Lilith, aliás, a revolta contra situações de injustiça e opressão. Em Touro, a paciência e a constância podem ser enfatizadas. Nesse signo de Terra, há um traço de perseverança no trabalho árduo, cotidiano, pragmático. As tarefas necessárias que precisam do seu tempo próprio e só trazem frutos mais adiante: semear, tecer, cozinhar.

Todas essas tarefas tradicionalmente conectadas à capacidade de espera do feminino. Enquanto escrevo me vem à mente o livro “O Tempo e o Vento”, de Érico Veríssimo, e especialmente as personagens Ana Terra – que melhor nome haveria para uma mulher parteira? – e sua neta Bibiana. E a infinita capacidade delas de tecer, e esperar. De plantar, e esperar. De cuidar, acolher, nutrir… e esperar.

Ilustração do livro Ana Terra, excerto de O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo, publicado em 1949.

Não por acaso, Eliane Brum usou várias vezes o verbo tecer e se referiu à “tessitura” do presente por redes extensas e silenciosas de mulheres que mostraram nas urnas a força de sua labuta cotidiana, tanto na formação de lideranças, quanto na ação política para que elas tivessem sucesso. Uma ótima metáfora para a energia de Lilith em Touro!

Beleza e aparência

É interessante ainda perceber em várias dessas candidaturas o elemento referente ao gênero e à expressão da sexualidade, temas considerados tabus pelas sociedades patriarcais, que negam às mulheres o direito de vivenciar seus corpos com liberdade.

Várias dessas candidatas materializam em suas identidades e em seus corpos, de forma física, essa afronta à moral conservadora. E também uma afronta importante à estética conservadora que traz padrões de beleza quase impossíveis de alcançar. Elas existem em corporalidades que não se conformam à norma, que escolhem outras formas de expressar o feminino que lhes habita.

Não poderia haver uma demonstração mais vívida de Lilith em Touro: a revolta contra o padrão está nos corpos dessas mulheres. Corpos que são criticados, ridicularizados, desvalorizados, ameaçados, violentados apenas por expressarem materialmente toda a complexidade do feminino. O inconformismo de Lilith contra a opressão encontra exemplos de materialização física impressionantes, como no caso das mulheres transgêneros ou travestis.

Vereadora mais votada da história em Aracaju, Linda Brasil representa a força do feminino não padronizado.

Se pensarmos no caso de Kamala Harris, por exemplo, percebemos que questionamentos ao fato de seu cabelo ser liso e de ela ser casada com um judeu – branco, portanto – apareceram em círculos insuspeitos de ativistas de esquerda.

Claro que há questões identitárias relevantes a partir da incorporação de padrões estéticos e de relacionamento hegemônicos que os movimentos negros levantam. Não se trata de desconsiderar a importância dessas questões. Porém, fico me perguntando se a relevância do penteado e da cor do cônjuge seria a mesma caso ela fosse um homem…

Percebe-se aí que a aparência e a vida sexual de uma mulher estão sempre sendo analisadas, avaliadas e julgadas socialmente, mesmo por indivíduos que não se dizem conservadores. Para além das exigências de mérito técnico, profissional e ético, uma mulher será sempre desafiada a comprovar sua adequação aos padrões morais e estéticos vigentes.

Uma verdadeira camisa-de-força corporal na qual estamos todas presas. Especialmente quando almejamos – e conseguimos! – ocupar espaços de poder. E isso se torna ainda mais claro com Lilith em Touro, o signo que fala, exatamente, da beleza física, do corpo e do mundo sensorial.

Hora de semear

Como comentei no texto anterior, um dos grandes talentos da Lilith taurina é a força de vontade, especialmente para atividades que exijam contenção, retenção ou dar forma às coisas. Os exemplos trazidos até aqui, espero, deixam claro que a perseverança desse movimento invisível do feminino apenas começa a colher seus frutos, bem como a espalhar suas novas sementes.

Mapa das eleições municipais brasileiras de 2020 traz a Lunação de Escorpião na Casa XII. Regeneração de padrões inconscientes coletivos à vista?

O mapa para o dia das eleições brasileiras (15/11) mostra alguns elementos bastante interessantes nesse sentido. No horário em que a votação começou, às 7h da manhã, Vênus em Libra estava na Casa XI, a casa dos grupos, coletivos e da ação social, e do Legislativo, clamando por diálogo, harmonia e equilíbrio nas nossas relações sociais e políticas.

Marte em Áries se opunha na Casa V, indicando a iniciativa e a capacidade de ação para a expressão identitária. Ambos em aspecto tenso com a dupla Plutão-Júpiter em Capricórnio, que dois dias antes fez sua última conjunção nesse signo.

A possibilidade de materialização de uma transformação profunda, rumo a formas de crescimento mais sustentáveis é real, mas precisamos manejar bem as energias do pioneirismo e da ousadia com a capacidade de negociação e a manutenção dos relacionamentos.

Na madrugada, Sol e Lua haviam se encontrado em Escorpião, sinalizando a Lua Nova, ou lunação. Momento de semear a mudança profunda de perspectiva que desejamos, de lançar as sementes à Terra e aguardar o tempo próprio de cada uma para florescer. E a mudança, nesse sentido, diz respeito ao feminino, ao que está escondido e ao que precisa ser aceito em nós mesmas.

É interessante perceber que Sol e Lua estão em harmonia com o trio de planetas em Capricórnio e também com Netuno em Peixes. Isso significa uma boa oportunidade para estruturar e materializar novos valores, com mais empatia e sensibilidade, transformando nossos recursos e buscando novas formas de conexão com a comunidade.

É possível ainda que haja uma ressignificação da nossa história enquanto povo e nação, a partir das experiências e vivências que nossos antepassados nos legaram. Talvez seja o momento de ouvir o que os povos tradicionais, as comunidades periféricas e os grupos marginalizados têm a dizer ao restante da sociedade.

A partir de dezembro, quando Saturno e Júpiter entrarem em Aquário e a Lua Negra se juntar a Urano, as mudanças sociais poderão ser intensas. Abre-se uma oportunidade sem igual de inovação, de experimentação e de criação de novas formas de conviver socialmente.

O poder que vem do feminino invisibilizado politicamente pode ampliar nossa consciência social e pessoal.
Photo by Guilherme Stecanella on Unsplash

Lilith em Touro anseia por excelência, e não foge do trabalho duro. Muito parecida com várias dessas mulheres que acabamos de eleger.

Que elas possam ser veículos de mudança e criação do futuro que desejamos para tod@s.

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