Lilithianas

Entre os arquétipos femininos que mais desafiam os astrólogos está Lilith. Quando terminei meu curso na Unipaz-DF, resolvi escrever sobre ela. A busca por pesquisas anteriores e referências foi bastante trabalhosa, com a maioria dos artigos e livros publicados em inglês. No Brasil, entre as astrólogas que pesquisam as influências dela estão Cláudia Lisboa e Vanessa Guazzelli Paim.

Astrologicamente, Lilith, ou Lua Negra, nada mais é do que um ponto referente ao apogeu lunar, calculado a partir da posição da Lua na configuração astral. Durante algum tempo especulou-se sobre sua existência real como um planeta, asteroide ou um segundo satélite natural da Terra.

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Mitologicamente, a história não é menos complicada. Lilith teria sido a primeira mulher de Adão, anterior a Eva. Criada em conjunto no que ficou conhecido como “homem primordial”, Lilith era uma parte desse humano divino, isto é, a essência feminina desse ser que foi separada fisicamente dele por Deus. Interessante ainda esclarecer que o próprio Adão teria pedido pela separação, por se sentir solitário sendo uno e não poder ter relações sexuais como os outros animais. Por ter sido criada à imagem de Deus, assim como Adão, Lilith exigiu um tratamento igualitário e não teria aceito ficar por baixo durante o coito. Adão não aceitou a imposição dessas condições por ela, que, para fugir dessa situação de humilhação e submissão, foi para o deserto, onde se uniu a Lúcifer e passou a constituir um demônio ameaçador para a humanidade.

Diferentes tradições

Historicamente, Hurwitz destaca que o mito de Lilith faz parte da tradição judaica e também da suméria, assim como babilônica, mas somente entre os judeus durou tanto tempo e se manteve com tanta força. O autor esclarece que o arquétipo da Grande Fêmea inclui a grande mãe e a Anima, e Lilith representa esse arquétipo, por ser uma figura mitológica da deusa divina e sedutora dos homens e/ou matadora e sequestradora de crianças. Como esse mito se reflete na psique dos sujeitos contemporâneos, traduz um problema universal, segundo Hurwitz: a confrontação com o feminino sombrio.

Ao longo do tempo, Lilith foi se tornando uma figura bipolar: anima sedutora X mãe terrível. Mas isso não era o comum nas mitologias antigas, nas quais os dois traços compunham a figura da deusa de uma forma mais integral no pensamento arcaico. Quando se amplia a consciência dessas características é que elas passam a aparecer separadamente, esclarece Hurwitz. De qualquer forma, a tradição talmúdica-rabínica percebia essa figura como perigosa e demoníaca, o que se conecta com a atitude patriarcal do Judaísmo de perceber o feminino como algo sempre ameaçador. Como uma consequência disso, prossegue o autor, na tradição ocidental do Cristianismo e do Judaísmo, o feminino não foi apenas desvalorizado, mas demonizado a partir de uma atitude extremamente defensiva.

Sicuteri, por sua vez, informa que o mito contém, resumidamente, todo o processo histórico de repressão das características atribuídas a esse feminino selvagem – ou, numa perspectiva psicológica, ao inconsciente profundo.

Manifestação criativa

Como ressalta Suely Engelhard,

“Podemos chamar de Lilith toda manifestação criativa que tem como objetivo pesquisar o mundo interno (o inconsciente) e que subtrai o domínio da razão pura. A psicanálise de Freud, a psicologia analítica de Jung, a filologia expansiva, a arte do surrealismo e do dadaísmo e as pesquisas astrológicas, orientadas pela sincronicidade, são expressões de Lilith” (Engelhard, 1997, p. 31).

Neste espaço virtual, portanto, reflexões sobre o feminino representado por esse arquétipo e os impactos de Lilith nas cartas natais também serão bem-vindas. O desafio da Astrologia Psicológica reside na tentativa de constelar os arquétipos inconscientes, para que possamos trazê-los à consciência, aceitá-los e conviver melhor com sua energia.

Referências

ENGELHARD, Suely. O renascer de Lilith. Junguiana. Revista Brasileira de Psicologia Analítica. Nº 15, dez. 1997, p. 28-41.

HURWITZ, Siegmund. Lilith – The first Eve. Historical and Psychological Aspects of the Dark Feminine. Zurich/ Switzerland: Daimon Verlag, 2012.

SICUTERI, Roberto. LilithA Lua Negra. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.