Marte em Câncer: intuição para as guerras internas?

Marte em Câncer não costuma ser descrito por astrólogos como um posicionamento fácil. Há alguns anos, durante uma constelação astrológica, uma colega que ocupou o lugar do Marte canceriano da moça que tinha seu Mapa Natal constelado narrou o seu sentimento de desamparo e chorou compulsivamente durante boa parte do exercício.

Naquele momento, ela descreveu a sensação de se sentir “afogada” por tantas emoções contraditórias. Ao mesmo tempo, falou para a “dona” do Marte que ele continuava lá, firme e forte, pronto para que o fosse preciso. “Você pode contar comigo!”.

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O peso das próprias emoções pode afogar qualquer guerreiro. Photo by Alaric Hartsock on Unsplash

Marte no mapa natal representa a iniciativa, o desejo, a motivação e o impulso para a ação, que levam o indivíduo rumo à individualidade. Guttman & Jonhson afirmam que Marte “trata do poder e da determinação de que precisamos para matar nossos demônios interiores” e, por isso, “as forças de Marte emergem de nosso próprio subterrâneo pessoal (Plutão)” (2005, p.109).

A ação interna e a assertividade podem não ser tão evidentes no Marte canceriano, mas um guerreiro é sempre um lutador, mesmo que esteja quase submerso em suas próprias lágrimas. Essa é uma imagem pungente que pode ser exata para muitos daqueles com esse posicionamento.

Impulsividade emocional

Como destaca Cláudia Lisboa, a coragem e a força, para o Marte canceriano, vem sempre acompanhadas da intuição, da sensibilidade e dos estímulos emocionais. Em muitos momentos, o combate pode estar voltado para os próprios conflitos internos. A sensação de insegurança aparece quando o indivíduo se sente ameaçado afetivamente. Nessas situações, toda a força do guerreiro pode vir à tona em explosões de raiva e impulsividade, agredindo aqueles que são mais próximos.

Depois da explosão, Marte irá se recolher à casca do caranguejo, sua armadura natural. E ali ficará remoendo a culpa por ter extravasado, de forma errática, energética e irracional, seus sentimentos. Afinal, Câncer precisa de um lugar seguro para estar, a sua verdadeira casa, e por isso busca segurança emocional a todo momento e em todas as situações.

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Depois da explosão, recolhido à casca? Photo by Phil Hearing on Unsplash

Segundo os Guttman & Johnson, a natureza cardinal de Câncer faz com que inicie facilmente os sentimentos e busque se fundir com os outros. Porém, isso pode resultar em perda da identidade pessoal e uma consequente melancolia.

Assim, será preciso expressar os sentimentos a fim de realizar o processo natural de expansão e limpeza interna. Como ressaltam os autores, o contínuo processo de absorção dos sentimentos dos outros demanda a necessidade de expulsá-los em algum momento, para liberar espaço para as próprias sensações e percepções (GUTTMAN & JOHNSON, 2005, p.328).

Também tem dificuldades em ser objetivo sobre aquilo que acaba de encontrar, pois no IC, ou raiz do mapa, Câncer está no ponto mais intenso de SUBJETIVIDADE, centro de seu universo.  Então, tudo o que existe afeta potencialmente Câncer de modos mais extremos no nível interior – talvez outra razão para melancolia. (GUTTMAN & JOHNSON, 2005, p.329).

Guerreiros maternais

Tradicionalmente conectado à Lua e à família, o signo de Câncer é percebido na Astrologia por suas conexões com a mãe e o instinto maternal, de cuidado e de afeto para aqueles que amamos, presentes em todos nós. Por sua força, contudo, a mãe pode sobrepujar o indivíduo de forma a não haver possibilidade de individualidade, configurando o arquétipo da Mãe Terrível.

Nesse caso, pode haver um estímulo extra à raiva, porque o indivíduo não encontra espaço para expressar suas necessidades emocionais livremente; e à culpa, por se sentir em eterna obrigação com a própria mãe. É comum que cancerianos prezem, às vezes de modo exagerado, sua relação com a própria mãe ou, por outro lado, com os próprios filhos, o que tem conexão com o mito de origem do signo.

A constelação do Caranguejo foi posta nos céus por Hera por ajudá-la em sua luta contra Hércules e Hidra. Tanto Hera quanto Hidra são aspectos da Grande Mãe pré-helênica, enquanto Hércules é o arquétipo patriarcal ou herói solar. Assim, nas profundezas da psique de um canceriano pode haver a necessidade de defender e proteger os ‘direitos maternos’, o grande feminino que deu a vida ao caranguejo e também sua imortalidade estelar. Quando a mãe, a honra da família ou o ninho estão ameaçados, o canceriano pode responder instintivamente beliscando o inimigo com suas pinças, como o caranguejo fez com Hércules (GUTTMAN & JOHNSON, 2005, p.325-326).

Se o Sol em Câncer pode provocar tais reações extremadas em defesa do lar e da mãe, imaginem o que um Marte posicionado aí pode realizar! Estamos na presença de verdadeiros guerreiros em defesa da própria família – ou daqueles que são incluídos neste grupo – contra tudo e contra todos.

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Mães guerreiras em defesa da própria família. Photo by Joss Woodhead on Unsplash

Raiva e melancolia

Marte expressa a energia em um nível muito consciente e físico. Não por outro motivo, a relação entre sexo X agressão e desejo X ação ficam claras no arquétipo. Do mesmo modo, o planeta vermelho do sistema solar levou seu nome, pois representa o fogo ardente da paixão ou da raiva. Como ressaltam Greene & Sasportas, há 14 mudanças fisiológicas que são comuns à raiva e à excitação, e somente quatro que são diferentes (1995, p.13).

Marte em Câncer é facilmente estimulado em um sentido erótico, mas seu processo emocional pode ficar ‘esfumaçado’. Com frequência, essa posição traz uma certa ira contra a mãe ou vinda dela (GUTTMAN & JOHNSON, 2005, p. 329).

Segundo Greene & Sasportas, Marte existe para que obtenhamos independência e crescimento, rompendo com os limites impostos por quem tenta nos dominar ou proteger em demasia. Não admira, portanto, que haja um direcionamento da raiva contra quem tenta impedir esse processo de crescimento. E no caso de um canceriano, pode ser sua própria mãe.

A raiva marciana, contudo, advém do Ego, é a raiva de quem se levanta e existe quando se tem um ego para afirmar e defender (Greene & Sasportas, 1995, p.39). Como afirmam Guttman & Johnson, “Marte corresponde ao guerreiro interior” (2005, p.111), mas sua energia não tem senso de direção. Os demais planetas e o posicionamento por signos é que auxiliam nesse direcionamento dessa energia interna. A libido, portanto, nos termos psicanalíticos.

Posicionamentos na semana

Nesta semana, Marte chega aos 18° de Câncer hoje, 14 de junho, e faz uma série de aspectos com outros planetas. A conjunção com o conjunto com Nodo Norte, também em Câncer, indica que temos uma oportunidade propícia para definir os nossos propósitos, aquilo que realmente desejamos realizar como missão psíquica de integração. O que precisamos fazer por nós mesmos? Como podemos nos afirmar e expressar nossas necessidades emocionais? Estamos correndo atrás do que nos faz feliz?

Ao mesmo tempo, a oposição a Saturno, exata hoje, aos 19° de Capricórnio, e a Plutão, aos 22° do mesmo signo, revela que podemos ter uma noção mais clara dos limites materiais para a obtenção de nossos desejos e da validade interna deles. O que precisamos realizar para obter aquilo que realmente queremos? Isso é realmente o que queremos? Por que estamos atrás disso?

Para complicar um pouco mais coisas, o quincúcio com Júpiter 19° em Sagitário pode desafiar nossas convicções sobre o mundo e sobre nossos ideais. Podemos descobrir que nosso fanatismo sobre determinadas questões, especialmente filosóficas, sociais ou políticas, não passa disso: teimosia e intolerância com posicionamentos diferentes.

Entretanto, essa descoberta interior não é nada confortável. Admiti-la para os outros pode nos custar muito esforço e, por isso, podemos preferir não mudar o rumo de nossas ações. Podemos ficar mais defensivos, e facilmente magoáveis ou ofendidos com quaisquer situações ou comentários que outros façam sobre nós e sobre nossa família nesse momento.

Para aliviar um pouco a tensão, apenas o trígono com Netuno, em 18° de Peixes, revelando que empatia, sensibilidade e cuidado com o outro podem nos trazer mais satisfação do que poderíamos esperar à primeira vista. Afinal, um pouco de fantasia e de harmonia com o todo não fazem mal a ninguém.

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Guerreiro pronto para a guerra: armadura também pode ser uma fantasia, não? Photo by Nik Shuliahin on Unsplash

Ainda que as coisas pareçam confusas nesse momento e não saibamos bem para onde dirigir nossa iniciativa, talvez seja por isso que o Marte canceriano anseia: uma pausa no conflito. Podemos descobrir, ao final desse trânsito, que toda a luta se resume a tentar acabar com a guerra. Seja interna, seja externa, seja social.

Um bom começo, provavelmente, é questionar: por que mesmo estamos em guerra? E por que estamos em guerra contra esses inimigos, especificamente? Quem são eles? O que querem de nós? E o que queremos deles? Eles são tão diferentes de nós, como pensamos inicialmente?

Somente Marte em Câncer para nos trazer uma reflexão tão profunda e, ao mesmo tempo, paradoxalmente apaziguadora. Aproveitemos!

 

Referências

GREENE, L.; SASPORTAS, H. A Dinâmica do Inconsciente. Seminários sobre Astrologia Psicológica. São Paulo: Pensamento, 1995. 10ª edição.

GUTTMAN, A.; JOHNSON, K. Astrologia e Mitologia. Seus arquétipos e a linguagem dos símbolos. São Paulo: Madras, 2005.

LISBOA, C. Os astros sempre nos acompanham. Um manual de Astrologia Contemporânea. Rio de Janeiro: Best-seller, 2013. 1ª ed.

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