Urano retrógrado em Touro nos brinda com uma chance de digerir melhor 2020

Urano está completando sua passagem pelo primeiro decanato do signo de Touro, onde está desde maio de 2018 e onde permanecerá até julho de 2025. Nesse primeiro terço, o planeta da originalidade e da revolução já mostrou a que veio. Ou tem alguém aí que está se sentindo super seguro e tranquilo sobre o futuro – individual e da humanidade – nos próximos meses?

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Urano tem o eixo inclinado e leva 84 anos para dar uma volta completa em torno do Sol.

A novidade é que ele inicia neste sábado, 15 de agosto, às 11h27 no horário de Brasília, o seu segundo período de retrogradação. E dessa vez, ao contrário do que ocorreu entre novembro de 2018 e março de 2019, ele continuará em Touro, voltando até o grau 6°43 e retomando seu movimento direto apenas em 14 de janeiro de 2021.

Já vimos em outro artigo que o movimento aparente dos planetas em marcha a ré significa um tempo de desaceleração, de revisão dos propósitos e das funções psíquicas simbolizadas por ele. Nesse sentido, o regente de Aquário propõe que façamos uma revisão da nossa percepção intuitiva, da nossa capacidade de compreensão de tudo aquilo que é novo, original e diferente.

Mudança de valores

Repetindo o ciclo de sete anos cumprido pela última vez entre 1935 e 1942, período em que o mundo assistiu e se envolveu na Segunda Guerra Mundial, Urano traz instabilidade social e econômica, autoritarismos e diversas tentativas de manutenção de tradições, e mudanças de valores, não apenas financeiros.

Mas como assim, mudanças de valores e, ao mesmo tempo, manutenção de tradições? Ora, sabemos que todo processo de mudança, seja interno ou coletivo, não se faz de uma hora para outra. Ao contrário, o percurso geralmente é cheio de idas e vindas, desvios e retornos ao mesmo ponto. Assim, é comum que em tempos de transformação social, política e econômica, surjam os reacionários que se opõem a qualquer alteração em seu próprio status.

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O caminho nem sempre é reto ou visível. Photo by Ksenia Kudelkina on Unsplash

O lance é que Urano é um planeta, no mínimo, imprevisível. Inconstante, excêntrico, eletrizante são alguns dos termos que os astrólogos costumam usar para definir a energia uraniana. Vejam, ele é o único planeta do nosso sistema solar cujo eixo está numa posição perpendicular aos demais. Ou seja, é como se ele girasse “deitado” em relação aos vizinhos.

Planetas transpessoais

O primeiro planeta a ser visto com a ajuda da tecnologia e o primeiro dos chamados “planetas exteriores” ou transpessoais, Urano está além da órbita dos planetas visíveis a olho nu – Saturno é o último deles. Ele leva 84 anos para dar uma volta completa em torno do Sol e é, portanto, o último planeta do qual poderemos vivenciar um “retorno”, ou um aniversário, durante o tempo de nossa vida.

Urano foi oficialmente descoberto por William Herschel em 1781, quando transitava em Gêmeos. O cientista já tinha observado o astro várias vezes por meio de telescópios, mas sem perceber que ele era um dos planetas do sistema solar. Como ele, outros cientistas e astrônomos como John Flamsteed e Pierre Lemonnier já tinham visto Urano desde 1690, mas acreditavam que ele fosse uma estrela.

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Urano não era “apenas” mais uma estrela no céu, como acreditavam os astrônomos até 1781.

Herchel propôs chamá-lo de “Georgium Sidus”, em homenagem ao Rei George III da Inglaterra. Depois de alguma polêmica na comunidade astronômica, o diretor do Observatório de Berlim, Johann Elert Bode, sugeriu que ele fosse chamado de Urano. Na Mitologia Grega, Urano é o pai de Saturno, que, por sua vez, é pai de Júpiter.

Pai do Céu

Urano é o Deus primordial, o “Pai do Céu” para os gregos, característica expressa no significado do seu nome Ouranos em grego. Junto com sua mãe Gaia, ou Terra, criou o universo e todos os seres que nele habitam, passando a ser seu marido. O mito tem uma profunda relação com a criatividade, portanto.

O problema é que, por não gostar dos filhos nascidos dessa união – ciclopes e titãs, entre outros de aparência monstruosa – ele prende a todos eles no ventre de Gaia. Enfurecida por ver suas criações presas, Gaia persuade seu filho Cronos (Saturno), o mais jovem dos titãs, a esconder-se e castrar o pai com uma foice.

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Castração de Urano, obra de Giorgio Vasari (1564).

O sêmen de Urano cai ao mar, dando origem à Afrodite (Vênus), deusa do Amor. O sangue cai na terra, dando origem às Fúrias. Urano é destronado pelo filho Saturno, o deus do tempo (Cronos), e se separa de sua mãe/mulher Terra. Saturno passa a reinar sobre o mundo, liberta seus outros irmãos, entre eles Reia, e com ela se casa.

Além de pai do Tempo, portanto, Urano é o pai do Amor e também das Fúrias, entre outros seres mitológicos. Seu potencial de criação, portanto, pode ser bem ou mal aproveitado. Em um certo sentido, Urano confere uma certa organização ao caos primordial de onde surge Gaia. E ao gerar Saturno, ele cria o princípio organizador da vida humana na Terra: o tempo.

Busca pelo fogo divino

Por ser o primeiro planeta descoberto nos tempos modernos, Urano revolucionou o conhecimento astrológico, que até então considerava apenas sete astros nos mapas: os luminares Sol e Lua, os planetas pessoais Mercúrio, Vênus e Marte, e os planetas sociais Júpiter e Saturno.

Assim, ele foi considerado o regente da Astrologia, substituindo a Mercúrio. Alguns astrólogos se referem a Urano como a “oitava maior de Mercúrio”, isto é, como um planeta que amplia as características mercuriais para o plano coletivo. “Urano é simplesmente uma forma maior, mais empoderada de Mercúrio”, ressaltam Guttman e Johnson (2004, p.253).

Conhecimento, sabedoria, descobertas científicas e insights sobre o coletivo são representados por ele. Nesse sentido, o filósofo Richard Tarnas relaciona o planeta Urano com o mito de Prometeu, para além do mito original de Urano. Essa é uma das razões que explica a regência de Urano sobre o signo de Aquário.

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A iluminação do conhecimento e da descoberta são os presentes de Prometeu. Photo by Ramón Salinero on Unsplash

Assim como Saturno, Prometeu também era um titã. A partir da argila, ele moldou os seres humanos e soprou neles seu espírito vital para fazê-los viver. Zeloso de suas criaturas, ele os defendia dos deuses e, para ajudá-los, roubou uma centelha do fogo primordial da carruagem do deus Apolo e deu à humanidade.

O ato de iluminação dos humanos enfureceu Júpiter, que acorrentou Prometeu a uma montanha no Cáucaso. Todos os dias, uma águia vinha e comia seu fígado. Como ele era imortal, o órgão se recompunha à noite. E o processo novamente acontecia novamente no outro dia, gerando mais sofrimento.

Tecnologia e revoluções

Prometeu só foi libertado de seu castigo quando Quíron ofereceu sua imortalidade para libertá-lo. Nesse sentido, o planeta Urano carrega o arquétipo prometeico em sua constituição, pois ambos significam a inventividade e a transgressão das regras.

Porém, a característica tirânica de Urano sobre os filhos que não correspondem ao ideal dele, nos previne que qualquer conhecimento, quando transformado em dogma, pode oprimir a humanidade, ao invés de libertá-la. Além disso, obter o fogo divino e a iluminação pode nos trazer custos bastante altos. Como, aliás, sabem todos os revolucionários.

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Revolucionários sabem que o preço a pagar pela rebeldia nunca é baixo. Photo by Warren Wong on Unsplash

Não à toa, Urano também foi associado às revoluções norte-americana (1776) e francesa (1789), contemporâneas próximas do descobrimento do planeta, além da revolução industrial e do começo do sistema capitalista no Ocidente. Em outros termos, Urano foi avistado em uma época de profundas mudanças sociais, culturais, econômicas e políticas.

Tecnologia, a eletricidade e o poder inventivo humano são outras questões relacionadas ao arquétipo. Nesse sentido, quem tem Urano em destaque na Carta Natal pode exibir um potencial inovador, descobridor, revolucionário, original e desenvolvedor de novos projetos.

Instabilidade e insegurança

Como tanto potencial de transformação, não surpreende que Urano traga instabilidade e insegurança como consequências de sua energia elétrica e disruptiva, especialmente quando transita no conservador, prático e lento signo de Touro.

O segundo signo do Zodíaco tem como tarefa estabilizar o desenvolvimento e a iniciativa pioneira de Áries. Assim, Touro é um signo fixo que está interessando em segurança e conforto. Ou seja: quer manter tudo como está.

Urano, como mencionei acima, está interessado em revolucionar, em agitar e provocar mudanças. E essas duas tendências opostas quando combinadas provocam, no mínimo, algum desconforto em nossas vidas.

Como destaca a astróloga Titi Vidal,

Quanto mais na zona de conforto, pra Touro, melhor. Só que quanto mais fora da zona de conforto e “fora da casinha”, pra Urano, tanto melhor. E é aí que reside o grande conflito que viveremos de 2018 a 2025. Onde temos estabilidade, a vida chega pra bagunçar. Onde tudo parece estável e garantido, alguma coisa pode mudar.

Percebam que Titi escreveu isso em 2018, antes da entrada de Urano em Touro. Não é exatamente a sensação que temos desde março de 2020, com a pandemia de Coronavírus? Empregos, rotinas, salários, negócios, cursos, viagens, planos, planejamentos, tudo foi alterado, mesmo que alguns insistam em andar sem máscara pelas ruas como se nada estivesse acontecendo.

Velocidade ou lentidão?

Muitos de nós estamos aflitos com uma pandemia para a qual não vemos o fim. Para aqueles de nós que seguimos trancados em casa, o tempo parece passar mais lentamente, e os dias que passam são iguais, pois não sabemos quando e se poderemos retomar os hábitos de antigamente – 2019, para ser mais exata.

Ao mesmo tempo, e paradoxalmente, o tempo está mais rápido, pois são tantas as demandas por adaptação, com novas formas de comunicação e de realização digital das tarefas cotidianas, que parece não haver mais tempo para simplesmente descansar.

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O tempo está mais rápido ou mais lento na pandemia? Photo by Jeremy Thomas on Unsplash

Para aqueles que não podem cumprir com as medidas de isolamento e precisam trabalhar fora de casa, a tensão por ter que conviver com os outros, se arriscar a pegar o vírus, e ainda lidar com as pressões econômicas que acabaram com tantos empregos parecem ainda mais opressoras.

A insegurança sobre o futuro parece ser a tônica do momento. A busca por vacinas e remédios milagrosos, além de terapias alternativas, colocou a Ciência e a Medicina no centro das atenções. Cuidados com o corpo e a com a saúde estão na pauta de todos. E isso diz muito do signo de Touro, ligado às sensações corporais e aos cuidados de beleza, à sexualidade e à nutrição dos prazeres materiais.

Tempo de ruminar

A retrogradação de Urano, que vai até janeiro de 2021, parece abrir mais uma oportunidade para que possamos refletir – e talvez digerir? – o que estamos vivendo de uma forma mais saudável. Touro fala de nutrição e de alimentação, do plantio e do cultivo.

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Hora de começar a digestão de 2020. Photo by Loan on Unsplash

No momento exato em que inicia seu movimento para trás, Urano estará conectado em harmonia com a Lua e Vênus, ambas em Câncer. Os astros indicam que talvez seja interessante rever aquilo que estamos cultivando. Que valores estamos alimentando? Quem ou o que estamos nutrindo com a nossa energia? As rotinas e os hábitos que adotamos são saudáveis para nosso desenvolvimento ou apenas nos desgastam?

Plutão em Capricórnio – materialização das transformações – se conecta de forma tensa com Lilith e Marte em Áries e com o Sol e Mercúrio em Leão. Será que nossas ações e impulsos estão colaborando para as mudanças que precisam ser feitas? Ou nossa revolta e nossa raiva estão apenas atrapalhando o processo coletivo e também interno?

Será que nossa individualidade e nosso raciocínio estão a serviço da coletividade ou apenas de nossos próprios interesses egoístas? Queremos brilhar às custas dos outros? Ou somos leais aos nossos princípios e generosos no compartilhamento de nossa consciência e do nosso conhecimento?

Provavelmente, o período de retrogradação de Urano será um ótimo momento para ruminar sobre todo o processo de mudança que 2020 nos trouxe. Uma época para iluminarmos nossas consciências a partir do conhecimento.

Afinal, não temos para onde fugir, pois morar em Marte não é uma possibilidade imediata. Ainda.

Quem sabe o que Prometeu nos reserva?

 

Referências

GUTTMAN, A; JOHNSON, K. Mythic Astrology Applied. Personal Healing through the Planets. St. Paul/Minnesota: Llewellyn Publications, 2004.

GUTTMAN, A.; JOHNSON, K. Astrologia e Mitologia. Seus arquétipos e a linguagem dos símbolos. São Paulo: Madras, 2005.

HAND, Robert. Horoscope Symbols. Rockport/MA: Para Research, 1981.

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