Quíron em Áries: ativando o Guerreiro Interior

A entrada definitiva de Quíron em Áries 18 de fevereiro de 2019, pela primeira vez desde o seu descobrimento em 1977 – quando já estava em Touro –, não é algo a se desprezar em termos astrológicos. Tivemos um trailer do que isso pode significar em 2018, entre abril e setembro do ano passado, mas somente agora poderemos começar a compreender o ciclo em toda a sua extensão.

Quíron já aparecia em fotografias astronômicas desde, pelo menos, 1890. Mas somente foi oficialmente reconhecido e nomeado em 1° de novembro de 1977, às 10h, em Pasadena, na Califórnia, ao ser identificado em uma foto tirado poucos dias antes, em 18 de outubro daquele ano.

Definido anteriormente como asteroide e cometa, Quíron faz parte de uma nova classe de corpos celestes nomeada como “Centauros” em 1990. Excêntrico no tamanho e na órbita, Quíron descreve uma elíptica que o faz trafegar entre Saturno e Urano na maior parte do seu giro em torno do Sol – que leva pouco mais de 50 anos para se completar. Porém, em alguns momentos, ele e aproxima-se de Júpiter, “entrando” na órbita de Saturno.

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Órbita irregular de Quíron faz com que ele fique mais próximo do Sol que Saturno em certo período do seu ciclo de 50,5 anos.

Também por conta dessa órbita “torta” em relação aos planetas, Quíron permanece apenas nove meses em Libra, enquanto trafega por quase nove anos em Áries. Isso significa que o ciclo iniciado agora é o mais longo dele na mandala astrológica.

Não à toa, minha reflexão sobre esse astro – meu contemporâneo que também está enfrentando sua quadratura de Netuno – só se materializou com o Sol já em Áries.

Materialização taurina

É realmente intrigante que Quíron só tenha sido devidamente identificado quase 90 anos depois de ter sido fotografado. Como ressalta Maria Eunice Souza, é um bom exemplo do que Jung definiu como sincronicidade: “quando estamos prontos, finalmente somos capazes de enxergar algo que esteve sempre na nossa frente, mas com o qual não éramos capazes de lidar ainda”.

Como destaca Melanie Reinhart, “Quíron e os centauros correspondem a experiências que nos permitem ver o que foi escondido da nossa vista” (2009, p.30). Segundo ela, nós só entramos nos domínios de Saturno quando estamos prontos para tomar a responsabilidade por nossas próprias vidas internas (REINHART, 2009, p.53). Nada mais adequado, portanto, que a materialização deste filho de Saturno só tenha ocorrido quando ele estava no signo de Touro, o representante da experiência no mundo concreto, sensível e físico.

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Quíron nos permite ver o que precisa ser visto. Photo by Seth Macey on Unsplash

A própria corporificação de Quíron já traduz alguns dilemas, pois ele é difícil de classificar astronomicamente, num paralelo muito próximo com o mito que lhe confere o nome. Afinal, Quíron, o Centauro que era o grande mestre dos heróis gregos, também era de difícil enquadramento: parte homem, parte cavalo, parte deus imortal.

Filho de Saturno, que perseguiu a ninfa Filira e transformou-se em cavalo para poder copular com ela, Quíron foi rejeitado pela mãe ao nascer. Conta o mito que Filira, para escapar do seu perseguidor, transformou-se em égua. Por conta desse estratagema dos pais, Quíron estava conectado aos três reinos: divino, humano e animal, como ressalta John Green. Filho de um estupro, ele representou tanta dor para sua mãe que ela pediu a Zeus que a transformasse em uma árvore.

Artes da cura

Abandonado, o bebê centauro foi adotado por Apolo, que o criou e lhe ensinou todas as suas artes. Além de um ótimo guerreiro e caçador, Quíron era também músico e curador. Ele torna-se, portanto, o grande Mestre e orientador de todos os heróis gregos: Aquiles, Hércules, Teseu, etc.

Em um episódio para o qual há várias versões na Mitologia, Quíron acaba sendo acidentalmente ferido por Hércules com uma flecha que continha o veneno da Hydra. A ironia que cerca o personagem é trágica: apesar de ser o maior curador de todos os tempos, Quíron não consegue curar sua própria ferida.

Como destaca Maria Eunice Sousa:

Quíron é desconfortável porque nos lembra de nossas fraquezas, de nosso lado aleijado, subdesenvolvido, nosso lado mais falível, nossa condição mais humana. Mas Quíron é sumamente necessário porque nos humaniza e nos lembra de que não importa quanto tenhamos nos aprimorado, sempre haverá algo que não tem conserto, e está certo, porque do contrário, seríamos onipotentes, invencíveis e certamente já não  precisaríamos estar andando nesta terra. Quíron nos faz humanos e nos mantém humildes (SOUSA, 2014).

Temos uma situação na qual bem se aplica o ditado popular, portanto: “em casa de ferreiro, espeto de pau”.

A dor vista de fora

Reinhart destaca que Quíron representa um portal invisível, pois está entre Saturno – o último planeta visível a olho nu e considerado um planeta social para a Astrologia – e Urano, que é um dos três planetas transpessoais. Sendo um lugar de “iniciação” (REINHART, 2009, p.16), Quíron nos chama a trabalhar com o que nos provoca dor de forma consciente.

Toda jornada de cura é única, assim como cada herói é único. Mas o processo, na perspectiva de Reinhart, só se dá quando a nossa dor é “vista” pelos outros, ou quando nós vemos a dor do outro (2009, p.58). Porque nesse momento nos tornamos humildes e compassivos com a dor alheia e o nosso próprio sofrimento.

Com suas duas metades – homem e animal no mito, social e transpessoal no posicionamento astrológico – Quíron “simboliza a reconciliação e a cura do conflito entre espiritual e instintivo” (REINHART, 2009, p.39), ressoando um antigo modo de consciência holística e intuitiva que ficou dormente no substrato de nossas psiques individuais, segundo a autora.

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Representação de Quíron em imagem clássica atribuía roupas para a parte humana.

No mito, Quíron só consegue se livrar de sua dor ao abrir mão de sua imortalidade e trocar de lugar com Prometeu, que estava acorrentado ao um monte onde uma ave de rapina todos os dias lhe comia o fígado. Ele também é libertado com o sacrifício de Quíron, mostrando que a consciência dos “limites da mortalidade humana, comprometida com o crescimento individual e o serviço aos outros” (REINHART, 2009, p.61) é uma necessidade interna de amadurecimento para todos nós.

Guerreiro solitário?

Segundo Reinhart, a posição e os aspectos com os outros pontos que Quíron faz no nosso mapa mostram elementos que necessitam de individuação de forma mais urgente que o restante da carta. Para ela, há uma tendência de externalizar as coisas definidas por Quíron, ao invés de tomá-las interna e simbolicamente (REINHART, 2009, p.77).

Ora, se os conteúdos ativados por Quíron em forma de sofrimento são mais facilmente reconhecíveis nos outros em momentos de dor, estamos diante de um processo de projeção. Que, entre outros objetivos, serve para nos proteger de sofrimentos que consideramos quase intransponíveis. De qualquer forma, são os relacionamentos uma das formas privilegiadas para contatar esses conteúdos, portanto.

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Como ativar nosso guerreiro interno para auxiliar os demais? Photo by Xuan Nguyen on Unsplash

Como, então, se dá a trajetória de Quíron no signo de Áries, reconhecido por sua independência, autonomia e pioneirismo, um verdadeiro guerreiro solitário quando a situação assim demanda?

Vejamos as palavras de Reinhart sobre isso:

Com as vulnerabilidades, anseios e medos de Quíron em Áries, às vezes podemos não nos sentir como heróis ou guerreiros! No entanto, seu dom é a coragem e ousadia de abraçar calorosamente e de bom grado tudo o que entra no campo de nossa consciência interior, permitindo que a espada do insight, a chama da criatividade e o poder da ação correta brilhem a partir do nosso centro luminoso.

Este Quíron é o “Guerreiro do Espírito”, onde a aventura heroica interior penetra através de nossas ilusões, cortando falsidades, quebrando velhos padrões e liberando a escuridão dos hábitos preconceituosos e contraditórios. As nuvens que obscurecem o Sol do nosso Ser Verdadeiro são dispersas e nossa inesgotável vitalidade e radiância são reveladas (REINHART, 2018).

Individualidade e responsabilidade

Para realizar a jornada interna de individuação, ou a jornada do herói, é preciso coragem para procurar o sentido dos acontecimentos, uma vez que o objetivo desse caminho não é a gratificação do ego, mas o entendimento compassivo de nós mesmos. Afinal, é o próprio curador que guarda a chave de seu sofrimento e de sua própria cura.

Como descreve Reinhart:

Quíron guarda a nossa humanidade, nos leva a olhar para baixo, a sermos humildes, e valorizar tanto os recessos escuros da nossa imaginação quanto a luz brilhante de nossas visões (REINHART, 2009, p.104).

Nesse sentido, o trânsito de Quíron por Áries pode estimular o trabalho interno, o olhar de todos nós para nossos mundos psíquicos, ao invés de buscarmos a cura no mundo externo, como ressalta John Green. Para Reinhart, Quíron representa nossa facilidade interna para processar nossas experiências a fim de colher resultados benéficos, isto é, apreender o sentido delas para nosso desenvolvimento.

Aquele que tem o astro no primeiro signo do zodíaco pode “demonstrar uma quase militante autossuficiência, não sendo capaz de pedir ajuda e convencido de que deve seguir sozinho” (REINHART, 2009, p.116). Porém, também demonstra uma ação intuitiva espontânea que é brilhante no timing, especialmente para o auxílio aos outros, com compaixão e aptidão, inovação e inciativa (REINHART, 2009, p.121).

Professor interno

Se Quíron é o nosso guia para o nosso centro, para o nosso umbigo, aquele que nos ajuda a trazer nossos demônios para casa, liberando os outros de nossas projeções (REINHART, 2009, p.62-63) e que nos leva ao nosso “professor interno” (2009, p.78), o seu trânsito por Áries pode nos auxiliar a enfrentar as dificuldades, especialmente pelos outros.

Afinal, um guerreiro que se preza, sempre luta pelos fracos e oprimidos. E cuida de si mesmo, sem sobrecarregar aos demais com suas questões internas. Ou, em outros termos, percebe que o agressor está dentro dele mesmo. O curador ferido, portanto.

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O professor interno nos mostra que o agressor está dentro de nós, não necessariamente nos outros. Photo by Henry Hustava on Unsplash

A polaridade com Libra, tão exaltada na primeira Lua Cheia no Ano Novo Astrológico, na semana que passou, novamente pode ser acionada durante esse trânsito. Ao olhar para o outro e suas dores, por meio dos nossos relacionamentos, podemos perceber que o sofrimento é uma circunstância íntima, e que pode ser transformado a partir do sentido interno que construímos para os eventos externos.

Por isso, quando curamos aos demais, estamos curando a nós mesmos.

Mas antes de ajudar aos outros, precisamos colocar a máscara de oxigênio. Em nós.

Um bom ensinamento de um professor ariano.

Boa jornada!

 

Referências

GREEN, John. Sorrow is Knowledge: Chiron in the Chart. Webinar. Mercury Internet School of Psychological Astrology. 17 de março de 2019.

REINHART, Melanie. Chiron and the Healing Journey. An Astrological and Psychological Perspective. London: Starwalker Press, 2009.

________, Melanie. Papoulas e Centáureas: Quíron em Áries. 13 de maio de 2018. Disponível em: http://mariaeunicesousa.com/2018/05/13/quiron-em-aries-papoulas-e-centaureas-azuis/ Acessado em março de 2019.

SOUSA, Maria Eunice. Quíron e a dor de ser humano. 8 de junho de 2014. Disponível em: http://mariaeunicesousa.com/2014/06/08/quiron-e-a-dor-de-ser-humano/ Acessado em maio de 2018.

 

 

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